O biólogo brasileiro Alexandre Antonelli, primeiro pesquisador do país a liderar a área científica do Royal Botanic Gardens, em Londres (conhecido como Kew Gardens), concluiu em junho de 2025 a digitalização de aproximadamente 6,4 milhões de espécimes de plantas e mais de 1 milhão de fungos. O projeto, considerado o maior da história da instituição britânica, mobilizou cerca de 150 funcionários do Kew e mais de 1.500 colaboradores em diversos países, incluindo o Brasil, e foi concluído dentro do prazo e do orçamento previstos.

Digitalização do acervo

Segundo Antonelli, ao assumir a direção executiva de Ciência no início de 2019, a digitalização já era a maior prioridade científica do Kew. O objetivo era tornar acessível remotamente uma coleção de 400 anos de história natural, coletada em todos os continentes. Além das exsicatas (amostras prensadas e desidratadas), o acervo inclui materiais preservados em álcool e o fungário com 1 milhão de espécimes. O herbário do Kew possui cerca de 300 mil espécimes-tipo (referência para descrição de espécies), sendo considerado o mais importante do mundo nesse aspecto.

Inspiração no Reflora

Antonelli revelou que o megaprojeto britânico foi inspirado pelo Reflora, iniciativa brasileira lançada em 2010 pelo CNPq com apoio da FAPESP. O Reflora foi o primeiro projeto mundial de repatriação digital de coleções brasileiras depositadas no exterior. “O Reflora foi uma inspiração para nós. Fomos colaboradores importantes do projeto, conduzido em parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro”, afirmou o cientista. Agora, o Kew pretende digitalizar o restante de suas coleções seguindo esse modelo.

Repatriação digital e democratização

O pesquisador destacou que a digitalização permite democratizar o acesso sem necessariamente deslocar os objetos físicos. “Hoje, qualquer pesquisador no Brasil ou em qualquer lugar pode acessar nossas coleções virtualmente com a mesma facilidade de uma compra em um e-commerce”, disse. Ele reconheceu o “débito histórico” da exploração botânica como ferramenta imperialista e afirmou que, embora não receba pedidos de repatriação física (complexa pela lei britânica), o Kew está aberto a empréstimos de longo prazo e envia exsicatas para pesquisadores que necessitam do material físico.

Importância dos herbários locais

Antonelli enfatizou que “coleções locais, mesmo que pequenas, possuem uma importância desproporcional ao seu tamanho para a ciência global”. Ele citou os incêndios no Museu Nacional (2018) e no Instituto Butantan (2010) como exemplos dos riscos de concentrar acervos em um único local, defendendo a criação de duplicatas para reduzir perdas catastróficas. O Kew recebe cerca de 20 mil doações por ano, tanto por conhecimento de especialistas quanto por mitigação de riscos.

Financiamento e estrutura

O Kew Gardens é uma fundação sem fins lucrativos. Cerca de um terço do financiamento vem do governo britânico, um terço de atividades próprias (ingressos e eventos) e o restante de filantropia e bolsas. O orçamento anual é de aproximadamente £ 150 milhões (mais de R$ 1 bilhão), com 1.500 funcionários e mais de 750 cientistas atuando em mais de cem países.

Colaborações com o Brasil

Antonelli listou quatro frentes de colaboração com o Brasil:

  • Expansão dos dados do Reflora: conectar registos a usos sustentáveis, como o medicinal, e integrá-los a bancos de dados internacionais.
  • Etnobotânica: colaborar com comunidades indígenas na Amazônia para caracterizar espécies utilizadas e repatriar conhecimento sobre artefatos vegetais guardados no Kew (cerca de 100 mil objetos), cujas técnicas de produção, em alguns casos, foram perdidas.
  • Conservação e restauração: auxiliar com dados de mapeamento e ferramentas tecnológicas para cumprir a meta de proteção e restauração de 30% do planeta estabelecida pelo Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. Na Mata Atlântica, há colaboração com pesquisadores como Pedro Brancalion e Bernardo Strassburg, usando sensoriamento remoto e inteligência artificial. Antonelli lidera um projeto-piloto de corredor ecológico no Rio de Janeiro.
  • Exploração de fungos brasileiros: estudar diversidade de espécies, moléculas e propriedades para fortalecer a bioeconomia do país.

Projetos pessoais e engajamento

Antonelli fundou a Fundação Antonelli para a Pesquisa e Conservação da Biodiversidade, com sede em Macaé de Cima (RJ), e lidera a iniciativa ARAÇÁ (Atlantic Forest Research And Conservation Alliance), que mantém uma estação de pesquisa aberta para monitoramento e descrição de novas espécies. Ele também é um dos autores principais do próximo relatório global sobre biodiversidade da IPBES.

Desafios e perspectivas

O cientista destacou que, apesar dos desafios econômicos e orçamentários, o diálogo com o governo britânico é constante e o Kew mantém independência acadêmica. Sobre a comparação entre mudanças climáticas e conservação da biodiversidade, Antonelli afirmou que a conservação permite resultados rápidos e visíveis individualmente, como cultivar plantas que atraem polinizadores. “Somos uma instituição científica, mas aproveitamos a oportunidade de inspirar as pessoas pela beleza das coleções e pela experiência de visitar nossos jardins”, concluiu.