O agravamento da guerra no Oriente Médio recolocou a inflação no centro das atenções dos principais bancos centrais. Nas últimas semanas, autoridades monetárias de economias desenvolvidas reavaliaram os impactos da alta dos preços de energia sobre a atividade econômica e a inflação, resultando em decisões distintas, mas unidas pela preocupação de que o choque entre Irã e Estados Unidos possa dificultar o retorno da inflação às metas.
Europa inicia ciclo de aperto
O Banco Central Europeu (BCE) elevou sua taxa de depósito de 2,0% para 2,25%, a primeira alta desde setembro de 2023. A decisão foi unânime, motivada pelos riscos inflacionários decorrentes da crise energética provocada pelo conflito no Oriente Médio. Em comunicado, o BCE afirmou que o conflito gera novas pressões sobre os preços e que a elevação dos juros é uma resposta adequada aos diferentes cenários possíveis.

As novas projeções indicam inflação de 3,0% em 2026, 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028, acima das estimativas anteriores. A presidente Christine Lagarde rejeitou a interpretação de que o movimento seria preventivo.
“Vamos monitorar atentamente quaisquer consequências adicionais desse grande choque de energia”, afirmou em coletiva de imprensa.Os mercados já precificam ao menos mais uma alta de juros até o fim do ano.
Japão eleva juros ao maior nível em 31 anos
Poucos dias depois, o Banco do Japão (BoJ) elevou sua taxa básica de 0,75% para 1%, o maior patamar desde 1995. A decisão reflete a preocupação com o repasse dos custos de energia para consumidores e empresas. Segundo o banco central, embora os riscos de desaceleração econômica tenham diminuído com o avanço das negociações diplomáticas, os riscos inflacionários continuam crescendo. O vice-presidente Shinichi Uchida declarou:
“Os aumentos de preços estão se generalizando e há o risco de que a inflação subjacente se desvie de nossa meta.”O movimento é simbólico por ocorrer em um país que conviveu por décadas com inflação baixa e juros próximos de zero.
Reino Unido opta por esperar
O Banco da Inglaterra (BoE) manteve a taxa básica em 3,75%, decisão aprovada por sete votos a dois. Dois integrantes do Comitê de Política Monetária defenderam alta imediata de 0,25 ponto percentual para evitar o desancoramento das expectativas de inflação. O presidente Andrew Bailey manteve a estratégia de “manutenção ativa”, argumentando que os juros já estão em patamar restritivo. Contudo, o banco central alertou que os efeitos da alta dos preços de energia ainda devem aparecer nos próximos meses, com projeção de inflação acima de 3,25% no último trimestre deste ano, ante 2,8% em maio.
“Aconteça o que acontecer no futuro, os preços mais altos da energia nos últimos quatro meses significam que já há alguma pressão inflacionária a caminho”, afirmou Bailey.
Fed mantém juros, mas sinaliza possível alta
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75% ao ano, decisão unânime e amplamente esperada. O banco central destacou que a economia continua crescendo em ritmo sólido, apoiada por investimentos, produtividade e mercado de trabalho resiliente, mas que a inflação permanece acima da meta de 2%, pressionada por energia e choques de oferta. O comunicado evitou sinalização de cortes e reforçou o compromisso com a estabilidade de preços.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, adotou tom mais duro em relação à inflação, reforçando a percepção de que o banco central americano pode precisar voltar a elevar os juros caso as pressões persistam. Essa postura consolidou a visão de parte do mercado de que ao menos uma alta permanece no radar até o final do ano, especialmente se os impactos da crise energética continuarem aparecendo nos índices de inflação.
Brasil segue na contramão
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, em decisão unânime. O corte de 0,25 ponto percentual já era esperado, mas o Banco Central deixou claro que acompanha atentamente os riscos do cenário internacional. Segundo o comunicado, a indefinição sobre os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e seus impactos sobre commodities e mercados financeiros exige prudência.
“O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais”, afirmou o Copom.Apesar disso, o Banco Central brasileiro continua avaliando que há espaço para cortes graduais dos juros. O Brasil mantém uma das maiores taxas de juros do mundo, mesmo após o corte, liderando os rankings globais de juros reais, o que ajuda a explicar a flexibilização em meio à cautela internacional.
Contexto e perspectivas
Para Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, as decisões mostram que os bancos centrais reagem de formas diferentes ao mesmo evento, de acordo com as vulnerabilidades de cada economia. Na Europa e no Japão, a maior preocupação é evitar que o choque de energia contamine os preços de forma generalizada. Nos Estados Unidos, apesar da manutenção dos juros, o tom mais duro do Fed abriu espaço para uma nova alta. Já no Brasil, o movimento foi oposto. Dumas alerta:
“O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a diminuir. Isso ajuda a explicar parte dos movimentos observados recentemente no dólar e nas curvas de juros.”Na prática, o cenário global ficou mais complexo. Se antes a discussão era sobre quando os bancos centrais voltariam a cortar juros, agora a questão é por quanto tempo conseguirão manter esse plano diante de um ambiente internacional mais desafiador.