A ata da 279ª reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), publicada nesta 3ª feira (23.jun.2026), revelou um tom de preocupação acentuada com a deterioração do cenário inflacionário e voltou a destacar os riscos associados à política fiscal.
O colegiado havia reduzido a taxa Selic –taxa básica de juros– em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, em 18 de março. Agora, enfatizou que o cenário exige uma “restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”. Eis a íntegra (PDF – 396 kB).
O documento trouxe o reconhecimento de uma “desancoragem adicional” das expectativas de inflação para horizontes longos, especificamente para 2028. Diante disso, o BC (Banco Central) projeta agora que a inflação só retornará à meta no 1º trimestre de 2028.
As projeções do cenário de referência são:
- IPCA 2026: 5,2% (acima do limite superior da meta);
- IPCA 4º tri de 2027: 3,7% (acima da meta central).
Vale lembrar que o centro da meta para a inflação brasileira definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Desse modo, ela pode flutuar de 1,5% a 4,5%.
INCERTEZAS NO RADAR
O Comitê detalhou um balanço de riscos com “assimetria altista”, indicando que a probabilidade de a inflação superar as projeções é maior do que a de ficar abaixo delas.
Os principais riscos de alta são:
- desancoragem prolongada – expectativas de inflação incorporando impactos de choques de oferta (petróleo e clima);
- serviços resilientes – inflação de serviços persistente;
- câmbio depreciado – uma combinação de políticas interna e externa que mantenha o dólar persistentemente alto;
- estímulos à demanda – consumo crescendo acima do produto potencial, enfraquecendo a potência dos juros.
Os riscos de baixa são:
- desaceleração doméstica mais acentuada que a projetada;
- desaceleração global pronunciada por choques de comércio;
- queda nos preços das commodities.
O RECADO AO GOVERNO E A TAXA NEUTRA
A autoridade monetária elevou o tom sobre a política fiscal, afirmando que o “esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal” e as “incertezas sobre a estabilização da dívida pública“ podem elevar a taxa de juros neutra da economia.
Segundo o documento, esse cenário tem “impactos deletérios sobre a potência da política monetária”, o que encarece o “custo de desinflação em termos de atividade”.
O Comitê reforçou a necessidade de que as políticas fiscal e monetária atuem de forma harmoniosa, previsível e contracíclica. Além disso, alertou que o aumento de crédito direcionado também retira a eficácia da Selic.
MUDANÇA NA ECONOMIA E ATIVIDADE
O diagnóstico sobre a economia doméstica aponta para uma retomada. Diferentemente da trajetória de moderação anterior, o 1º trimestre de 2026 mostrou uma aceleração da atividade econômica, com setores mais sensíveis à renda apresentando resiliência.
O mercado de trabalho segue sendo um ponto de atenção. O Copom destacou que a taxa de desemprego permanece em “patamares historicamente baixos” e que os “rendimentos reais médios têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade”.
Essa dinâmica preocupa a autoridade monetária pelo risco de repasse para os preços finais ao consumidor.
A REDUÇÃO DE 0,25 P.P.
O Copom revelou ter discutido cenários que exigiriam “variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic” para forçar a inflação de volta à meta mais rapidamente. Contudo, julgou mais adequado manter uma trajetória para a Selic mais próxima das projeções do mercado para evitar “induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros”.
A decisão de reduzir a taxa para 14,25% buscou compatibilizar o processo de desinflação com a suavização das flutuações da atividade econômica.
O BC concluiu afirmando que não hesitará em ajustar a magnitude do ciclo de juros caso novos dados sobre os conflitos no Oriente Médio ou a dinâmica interna de preços exijam maior firmeza.