Na sessão de 9 de outubro da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o deputado estadual Renato Freitas (PT), de 40 anos, discursava contra o proselitismo religioso quando membros de uma igreja evangélica nas galerias começaram a vaiá-lo. O presidente da casa, Ademar Traiano (PSD), 70, interveio. Ao retomar a palavra, Freitas reclamou que o cronômetro não havia sido pausado; Traiano negou-se a restituir o tempo. Iniciou-se um bate-boca. Freitas chamou os espectadores de “hipócritas religiosos, que foram os mesmos que crucificaram Cristo”. Traiano determinou que cortassem o microfone do colega.
Enfurecido, o petista continuou gritando enquanto Traiano tentava dar sequência à sessão. O deputado Requião Filho (PT) tentou intervir: “Os senhores podem divergir, mas cortar a palavra de um parlamentar nesta casa vai ser a primeira vez.” Freitas desceu do púlpito e foi de mesa em mesa tentando falar pelos microfones dos colegas. Chegou a gritar: “Você não é rei!” Por fim, postou-se em frente à mesa-diretora e esbravejou: “O senhor me respeite.” Traiano determinou que o Conselho de Ética instaurasse procedimento contra Freitas por quebra de decoro. O petista subiu o tom: “Você é um corrupto!”
A acusação poderia render a Freitas um processo por calúnia e colocar em risco seu mandato. Não seria o primeiro: em 2022, quando vereador em Curitiba, foi cassado por manifestação após missa, mas o STF devolveu o mandato. Na Alep, já respondera a processo por discussão com o deputado Ricardo Arruda (PL), arquivado.
Desta vez, porém, a altercação envolvia uma figura de maior poder. Traiano é o presidente mais longevo da Alep, no posto desde 2015, sempre alinhado ao governo do Paraná. Muitos parlamentares davam como certa a cassação de Freitas. O caso, no entanto, teve reviravolta e revelou um esquema de corrupção.
No dia seguinte ao bate-boca, Freitas, mestre em direito pela UFPR, sabia que poderia ser acusado de calúnia. A única saída era conseguir provas que sugerissem a corrupção de Traiano. “Desde que entrei [na Assembleia] ouvi muitas histórias, de propinas, mas nunca tinha me chegado nada que pudesse comprovar”, disse Freitas à piauí. Nas semanas seguintes, recebeu diversas dicas, mas nada concreto.
Em 1º de dezembro, às vésperas de entregar suas alegações finais ao Conselho de Ética, Freitas recebeu uma série de documentos em seu celular. Em um deles, Traiano assumia formalmente ter recebido propina de um empresário. Tudo estava sob sigilo judicial.
O empresário Vicente Malucelli Netto, representante da TV Icaraí, que venceu licitação para produzir conteúdo para a TV da Alep (contrato de 11,4 milhões de reais em 2012, por três anos), firmou acordo de colaboração premiada em 2020. Descreveu ter sido procurado por Traiano e pelo então deputado Plauto Miró (DEM), que pediram propina. Segundo o delator, em agosto de 2015, Traiano escreveu num papel o valor de 300 mil reais. Após negociação, acertaram 200 mil reais, 100 mil para cada. A propina a Traiano foi paga em duas parcelas: a primeira, de 50 mil reais, em espécie, dentro de um envelope, na própria Assembleia; a segunda, em três cheques, entregues no hall do prédio onde o parlamentar morava.
Em dezembro de 2022, Traiano e Miró fecharam um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o MP-PR, admitindo ter recebido vantagens indevidas e se comprometendo a pagar 187 mil reais de reparação. O processo encerrou-se sem denúncia. O MP-PR disse não poder comentar o caso por “sigilos impostos por lei”.
Ao ler os documentos, Freitas questionou o acordo. “O próprio MP-PR recebeu a denúncia, o próprio MP-PR pediu sigilo e fez um acordo de não persecução, o que é um absurdo”, disse. Para ele, o episódio mostra a influência de Traiano. Levantamento do jornal Plural apontou que, sob sua presidência (2015-2023), a Alep aprovou a criação de 594 cargos ao MP-PR, além de benefícios.
Em 1º de dezembro, Freitas incluiu os documentos no processo. No dia seguinte, a juíza Giane Maria Moreschi determinou que o Plural, o G1 e a GloboNews retirassem do ar matérias sobre o caso, sob sigilo judicial, e proibiu novos conteúdos, sob multa diária de 50 mil reais. Entidades de imprensa classificaram a decisão de censura. Em 6 de dezembro, o desembargador Rosaldo Elias Pacagnan suspendeu a liminar, afirmando que os fatos ganharam publicidade na Alep e que “a censura, esta sim, está proibida. Terminantemente”.
Na noite de 6 de dezembro, a imprensa voltou a noticiar o caso. Traiano estava em um palanque com o governador Ratinho Junior em Foz do Iguaçu.
Ademar Traiano começou a vida pública em 1982, como vereador em Santo Antônio do Sudoeste. Foi prefeito e, desde 1990, é deputado estadual, acumulando nove mandatos consecutivos. Preside a Alep desde 2015, alinhado ao Palácio Iguaçu. Sua última recondução está sob judice no STF.
Esta não é a primeira polêmica de Traiano. Entre 2000 e 2006, seu filho Ademar Luiz Traiano Júnior foi servidor comissionado na Alep, recebendo vencimentos acima do teto constitucional. Em 2017, Traiano assinou um TAC, comprometendo-se a restituir 355 mil reais aos cofres públicos.
Em 2017, outra delação, na Operação Quadro Negro, envolveu Traiano. O empresário Eduardo Lopes de Souza afirmou ter pago propinas a Traiano em três ocasiões: 100 mil reais em 2014 para campanha; mais 100 mil reais em dezembro de 2014, quando Traiano disse que seria presidente da Alep; e, em 2015, dinheiro escondido em caixas de vinho.
Traiano disse não poder se manifestar em razão do ANPP. Em nota, afirmou que “não há nenhuma investigação em andamento sobre os documentos divulgados”. A OAB-PR pediu o afastamento “urgente e veemente” de Traiano da presidência. Ele permanece no cargo. Freitas protocolou pedido de cassação contra Traiano. As decisões ficarão para o ano seguinte. O petista adotou cuidados especiais com a segurança. “Eu disse que ele era corrupto e corrupto ele é. A verdade prevalece”, afirmou.
Com informações de Revista Piauí.