Douglas Christian da Silva, de 31 anos, foi baleado no rosto por policiais militares na noite de 28 de outubro de 2025, durante a maior chacina da história do país, que deixou 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Ele sobreviveu, mas agora responde a processo por tentativa de homicídio qualificado, desobediência e porte ilegal de arma. Os policiais que o atingiram tiveram os procedimentos internos arquivados pela Corregedoria da PM.
Douglas saiu de casa para fazer uma entrega de produtos naturais no bairro de Inhaúma, a menos de 5 km do Complexo do Alemão. Ao retornar, foi perseguido por quatro policiais do Batalhão Tático de Motociclistas. Ele afirma que não viu nem ouviu ordem de parada até os tiros começarem. Um disparo de fuzil calibre 7,62 atravessou o vidro do carro e atingiu seu maxilar. Ele ficou 17 dias em coma, passou por traqueostomia e perdeu 21 quilos durante 57 dias de internação no Hospital Geral de Bonsucesso.

Imagens de câmeras de segurança e de vizinhos, às quais a Agência Pública teve acesso, mostram que os policiais retiraram objetos do carro de Douglas no local, mas não havia arma. Um revólver calibre 38 só foi apresentado na delegacia às 4h22 da manhã, horas após o baleamento. A perícia no automóvel, feita no pátio da delegacia, confirmou que os cinco tiros foram disparados de fora para dentro. Não houve exame residuográfico para ligar a arma a Douglas.
Uma reconstrução em 3D feita por analistas forenses independentes indica que o tiro que atingiu Douglas partiu de um policial posicionado à frente do carro, em uma moto que ultrapassou o veículo. O laudo pericial de dez páginas aponta que o disparo foi de frente para trás, compatível com o ferimento no rosto da vítima.

Douglas ficou com sequelas graves: os médicos retiraram 13 centímetros da fíbula de sua perna esquerda para reconstruir o maxilar, o que afetou os movimentos dos dedos do pé. Ele também sofreu lesão no joelho direito. Perdeu dez dentes e usa prótese dentária doada. Ainda precisa de fisioterapia e acompanhamento psicológico, mas não consegue acesso pelo SUS.
Após a alta hospitalar em 24 de dezembro de 2025, Douglas obteve prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. Ele pode sair de casa entre 6h e 19h nos dias úteis, mas fica recluso em feriados e fins de semana. Voltou a trabalhar com entregas, mas relata medo ao ser parado pela polícia. “Tremi igual vara verde”, disse sobre uma abordagem recente.

O advogado de Douglas, Gilberto Santiago Lopes, pede a absolvição sumária do cliente e a disponibilização das imagens das câmeras corporais dos policiais, que não foram apresentadas. A PM informou que dois procedimentos apuratórios foram instaurados e arquivados, mas não comentou sobre as câmeras. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, apenas 183 dos 2.500 policiais usaram câmeras na operação, e 17,6% dos agentes do Bope retiraram os equipamentos.
O defensor André Castro, do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio, afirma que o bloqueio de informações é quase absoluto. A Defensoria cuida de 20 dos 117 casos de vítimas civis, mas não tem acesso a laudos e imagens completas. “Uma pessoa pode ter sido executada, outra podia estar atirando na polícia. Precisamos de elementos”, disse.
Douglas se apoia na família para superar o trauma. A filha Duda, de 9 anos, escreveu um bilhete que ele guarda: “Pai, quando você estiver nos piores momentos, eu vou te amar da Terra à Lua ida e volta.” Ele diz que reza todos os dias para ter sua vida de volta.
Com informações de Agência Pública — leia a matéria original.