Estudos indicam que aves migratórias dependentes de zonas úmidas costeiras podem perder mais de 50% de seus habitats até 2050, como consequência das mudanças climáticas e da degradação de ecossistemas estuarinos. No Brasil, o impacto recai especialmente sobre aves limícolas, que necessitam de uma cadeia contínua de áreas úmidas saudáveis para realizar suas longas jornadas entre hemisférios.

Entre as espécies mais ameaçadas está o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus), classificado como vulnerável. A redução na oferta de alimento compromete sua preparação para uma travessia de até 8 mil quilômetros, do litoral nordeste do Brasil até a costa dos Estados Unidos.

Bacia Potiguar: sítio de importância regional

Em 2024, a Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, foi reconhecida pela Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN) como “sítio de importância regional”. A região, que abrange mais de 8,5 mil hectares, é vital para a conservação do maçarico-de-papo-vermelho e de outras espécies migratórias.

O projeto Flyways, conduzido pela SAVE Brasil com apoio do Instituto Neoenergia, realiza censos trimestrais em trechos georreferenciados de 1 km ao longo de 20 km da faixa costeira entre os municípios de Macau, Guamaré e Galinhos. Durante a maré baixa, a equipe registra as aves avistadas. Em março de 2026, foram contabilizadas 3.508 aves limícolas, sendo 774 maçaricos-de-papo-vermelho.

Ameaças: do lixo aos grandes empreendimentos

Segundo João Damasceno, coordenador do projeto Flyways e pesquisador da UFRN, as aves limícolas funcionam como bioindicadores da saúde ambiental. Ele destaca que o aquecimento global já afeta áreas de alimentação dessas aves. Entre as principais ameaças antrópicas estão a prática de kitesurf, a circulação de veículos nas praias, a ausência de saneamento básico — apenas 33,79% da região Nordeste dispunha de coleta de esgoto em 2023 — e o descarte inadequado de lixo, que se acumula nos manguezais.

A erosão costeira, intensificada por barragens que retêm sedimentos, reduz a faixa de praia disponível para alimentação. O professor Venerando Amaro, da UFRN, aponta que a potência das ondas aumenta mais de 0,5% ao ano em alguns trechos, acelerando o recuo da costa. Além disso, grandes empreendimentos de energia eólica e projetos de hidrogênio verde avançam sobre áreas sensíveis, com riscos de colisão de aves com cabos e impactos de ruído.

Mudanças climáticas e perda de biodiversidade

Estudos da UFRN indicam que aves dependentes de zonas úmidas costeiras podem perder mais da metade de seus habitats em 50 anos. A elevação do nível do mar e o aumento da energia das ondas reduzem os bancos de lama e manguezais onde as aves se alimentam. O aquecimento global também afeta a reprodução no Ártico, diminuindo o sucesso de eclosão dos ovos.

Moradores locais relatam as transformações. Luiz Luna Filho, pescador de 83 anos, afirma que a diversidade de pescados diminuiu. A marisqueira Francicleide Ferreira, conhecida como Bibinha, notou a redução dos manguezais. Antônia Amarantos Sousa precisa percorrer distâncias maiores de barco para encontrar moluscos.

Avanços na conservação

A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), realizada em março de 2026 em Campo Grande (MS), incluiu o maçarico-de-bico-torto e o maçarico-de-bico-virado no Apêndice I, que exige ações globais de proteção. Também foi lançado o Atlas das Rotas Migratórias das Américas, plataforma de mapeamento colaborativo.

No Rio Grande do Norte, a SAVE Brasil iniciou um projeto piloto de restauração de manguezais na Bacia Potiguar, com plantio de cerca de cem mudas e meta de trezentas ainda em 2026. Em janeiro de 2026, o estado publicou a primeira Lista Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas, com 172 espécies, incluindo oito aves costeiras migratórias, que orientará o licenciamento ambiental.

Educação ambiental e mobilização comunitária

Oficinas de Cartografia Ancestral, realizadas com marisqueiras, resgatam a memória ambiental e identificam áreas de manguezal degradadas desde a década de 1980. Atividades lúdicas em escolas, como tatuagens temporárias de aves, promovem a conscientização sobre a importância da conservação.

“Quando a gente fala que um chiclete pode ser confundido com alimento por uma ave, as crianças ficam impactadas e cobram atitudes dos pais”, relata Geilson Araújo, estudante de Biologia e voluntário.

Damasceno expressa esperança: “Eu tenho duas crianças. Trabalho para que, daqui a 10 ou 15 anos, a gente vá para a praia e eles digam: ‘Olha, papai, aquele ali é o bichinho [com] que você trabalha, né?’. E que eu possa responder: ‘É, ele ainda está aqui’.”