Duas professoras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicaram um artigo em que contestam o que chamam de narrativa sobre a 'indústria do autismo', reavivada por uma reportagem do The New York Times de maio de 2026. O texto original denunciava supostos abusos em clínicas nos Estados Unidos, onde crianças fariam sonecas durante terapias e o tempo seria cobrado do Medicaid.

No artigo, as docentes Adriana Borges (Faculdade de Educação) e Maria Luísa Nogueira (Departamento de Psicologia) afirmam que o contexto brasileiro é diferente. Segundo elas, a maioria das famílias no Brasil não tem acesso a terapias, ao contrário do que ocorre nos EUA. Citam dados do Mapa Autismo Brasil (2026) segundo os quais 18,1% das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não fazem nenhuma hora semanal de terapia; 29,9% fazem uma hora; e apenas 12,4% fazem duas horas. Menos de 30% têm acesso à Análise Aplicada do Comportamento (ABA).

As autoras rebatem a acusação de que a ABA seria 'tortura'. Classificam-na como 'terapia de base utilizada na maioria dos países', com melhores resultados, e lembram que o Conselho Federal de Psicologia já emitiu orientações sobre o tema (nota técnica 23/2025). Reconhecem que existem clínicas e profissionais não confiáveis, mas consideram que tomar casos isolados como regra desconsidera o trabalho de muitos profissionais sérios.

O artigo também aponta contradições: segundo as professoras, 'as mesmas pessoas que criticam as clínicas que oferecem o tratamento em ABA defendem outras abordagens' que também são cobradas. Elas afirmam que a narrativa contra a 'indústria do autismo' é propagada por quem 'utiliza um dossiê feito com dados da Associação Brasileira de Planos de Saúde (ABRAMGE)', sugerindo que os planos de saúde se beneficiam ao limitar o acesso a tratamentos.

Por fim, as autoras defendem mecanismos de regulação e fiscalização e criticam o que chamam de 'discursos rasos'. Destacam que as famílias sofrem com falta de recursos e políticas públicas, e que a evasão escolar de autistas é uma realidade, segundo o IPEA.

Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.