O filósofo francês Clément Rosset costumava destacar o aspecto cruel da realidade, não no sentido sádico, mas como algo bruto e incontornável. A realidade, segundo ele, ameaça as fantasias que criamos para nos proteger dos fatos. Quanto mais duros os fatos, maiores os esforços para negá-los ou reinterpretá-los.

É o que ocorre após a divulgação de áudios que mostram que, ao contrário do que afirmava o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ele e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, não apenas se conheciam, mas mantinham uma relação de intimidade, com declarações de lealdade e interesses de investimento. Desde então, apoiadores do senador tentam construir uma narrativa para conter o impacto das revelações.

Os áudios indicam que Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro R$ 134 milhões para bancar o filme "Dark Horse", uma produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O filme, com orçamento de 24 milhões de dólares, seria o mais caro da história do cinema brasileiro, mas até agora só apresentou um teaser-trailer amador, com imagens de bastidores e takes inacabados, além de ter usado sem autorização a música "Survivor", do grupo Destiny's Child. Representantes da cantora Beyoncé tomaram medidas legais para retirar o material do ar.

Além disso, a produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama, preside uma ONG que recebeu mais de 100 milhões de reais da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades de São Paulo, conforme denúncia do Intercept. A entidade não tem histórico relevante em telecomunicações, e os pagamentos ocorreram antes da entrega do serviço. Karina também está ligada a outra ONG que recebeu ao menos 2,6 milhões de reais em emendas parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon.

O filme "Dark Horse" é descrito como uma propaganda política que busca reescrever a história e transformar Jair Bolsonaro e aliados em figuras heroicas, enquanto adversários são retratados como caricaturas negativas. No entanto, as revelações sobre o financiamento e as relações com Vorcaro contradizem o discurso de combate ao "sistema" e à promiscuidade com empresários e banqueiros.

Segundo investigações da Polícia Federal, os recursos para o filme podem ter origem em operações financeiras fraudulentas. O caso ganha novos contornos com a proximidade entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, que ameaça o projeto de poder da família Bolsonaro para as eleições de 2026.

Com informações de Intercept Brasil.