O Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta um deslocamento geopolítico da violência letal no Brasil, com as maiores taxas de homicídio concentradas nas regiões Norte e Nordeste. O fenômeno, já denunciado por movimentos sociais, é associado à expansão de facções criminosas e à ausência de respostas estatais não militarizadas.

Maiores taxas de homicídio em 2024

Segundo o levantamento, os estados com os maiores índices de violência letal em 2024 são: Amapá (45,7 homicídios por 100 mil habitantes), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3). A comparação entre 2014 e 2024 mostra que os maiores aumentos absolutos ocorreram no Amapá, Amazonas, Pernambuco e Bahia.

Nordestinização da violência

O termo “nordestinização da violência” foi cunhado por pesquisadores e integrantes do Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste (FPSPNE), criado em 2019, para descrever a mudança do eixo da violência letal para o Norte e Nordeste, tendo jovens negros como principais vítimas. Esse processo está ligado ao deslocamento e à expansão de facções como PCC e Comando Vermelho, que historicamente atuavam no Sudeste.

Em entrevista, o sociólogo José Luiz Ratton, da UFPE e Fiocruz, afirmou que os estados nordestinos se tornaram estratégicos nas rotas do tráfico internacional de drogas vindas de países andinos. O aumento das mortes reflete um narcotráfico fragmentado em facções locais que aliaram-se ao PCC e ao Comando Vermelho, intensificando disputas armadas.

Ausência de respostas estruturais

Pesquisadores do Fórum apontam que a escalada da violência é agravada pela falta de respostas estatais que não sejam militarizadas, inclusive em governos de esquerda. A Bahia, governada pelo PT, é citada como exemplo de estado que respondeu ao avanço da violência com repressão armada e expansão de ações policiais.

Vítimas: jovens negros

Os dados de 2024 mostram que a taxa de homicídios entre pessoas brancas, amarelas e indígenas foi de 10 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre pessoas negras (pretas e pardas) chegou a 27,3 por 100 mil. No Amapá, a taxa entre negros atingiu 58,8 por 100 mil.

O Atlas também revela que, embora as mortes de mulheres fora de casa tenham diminuído, os assassinatos dentro de residências permanecem estáveis há dez anos, indicando a necessidade de políticas de prevenção à violência de gênero.

O fenômeno do deslocamento da violência não é novo, mas a discussão pública sobre segurança ainda se concentra no Sudeste, enquanto o Norte e Nordeste recebem menos atenção nacional e menos respostas estruturais.

Com informações de Ponte Jornalismo.