Em Los Angeles (EUA), o People’s Football Club, organização sem fins lucrativos baseada na solidariedade da classe trabalhadora e no antirracismo, promoveu em março a partida “O Futebol é do Povo” para mobilizar trabalhadores contra a Copa do Mundo de 2026. A cidade-sede, que receberá oito jogos no SoFi Stadium, é palco de críticas ao megaevento. Um panfleto do evento exibia um jogador mexicano entre agentes federais de imigração mascarados, com os dizeres “Abolir o ICE, Abolir a Fifa”.
Victor Quintero, organizador do People’s Football Club, afirmou que jogadores do futebol recreativo compartilham a visão de que a FIFA é “um câncer para o esporte”. Ele criticou a dependência da entidade de empresas de tecnologia parceiras do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) e os preços exorbitantes dos ingressos, que excluem trabalhadores locais.

Impactos sociais e violações de direitos
Além das críticas ao futebol, há resistência às remoções de moradores, à gentrificação e à violência estatal associadas à Copa. A Anistia Internacional divulgou relatório alertando para práticas repressivas, como remoção de pessoas em situação de rua, perfilamento étnico, batidas indiscriminadas e repressão a protestos. A Human Rights Research constatou que exploração do trabalho, despejos e supressão de liberdades civis são comuns em cidades-sede.
Eric Sheehan, da coalizão NOlympics LA, declarou que moradores amam futebol, mas não confiam nos dirigentes da FIFA, que usam eventos para fortalecer aliados e “limpar a imagem de países como os EUA e Israel”. A entidade concedeu a Donald Trump seu primeiro “Prêmio da Paz”, visto como tentativa de conquistar simpatia.

Obrigações das cidades-sede e embelezamento urbano
A FIFA exige que cidades-sede elaborem “avaliações de risco de direitos humanos”, mas a maioria perdeu o prazo estendido de agosto de 2025. Laura Macintyre, advogada da Pivot Legal Society de Vancouver, disse que a cidade publicou em fevereiro uma estratégia que era uma lista burocrática de políticas existentes, sem financiamento. O acordo com Los Angeles obriga a cidade a “embelezar” espaços públicos às próprias custas, o que defensores consideram instrumento de deslocamento populacional.
Em Vancouver, foi criada uma zona de “embelezamento” de mais de 1,6 km ao redor do BC Place, no bairro Downtown Eastside, onde moradores em situação de rua temem ser removidos, como ocorreu nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010.

Gastos e desigualdades
Seattle gastará US$ 32 milhões para sediar seis partidas. Moradora local, identificada como Em por segurança, disse que melhorias como banheiros, bebedouros e transporte gratuito surgem “magicamente” para quem tem ingresso da FIFA, enquanto o resto da cidade não usufrui no restante do ano. Ela integra a Chinatown International District Coalition, que luta contra remoções.
Megaeventos esportivos são usados para livrar cidades de populações indesejáveis. Durante a Copa de 2014 no Brasil, 250 mil moradores mais pobres foram ameaçados de despejo, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, segundo a Al Jazeera.
Exemplos históricos e criminalização
Tyeshia Redden, professora de Planejamento Urbano na Universidade de Toronto, apontou que na África do Sul a Copa foi justificativa para remoções antes e depois do torneio. Em Atlanta (EUA), antes dos Jogos Olímpicos de 1996, foram emitidas notificações em massa contra pessoas negras em situação de rua, e policiais preenchiam formulários com descrições como “negro, homem, sem-teto”.
Em Los Angeles, a corrida eleitoral para prefeitura se misturou com a Copa, resultando em guerra contra políticas de redução de danos, segundo Benton Oliver, pesquisador da Universidade de York. Imigrantes asiáticos em casas de massagem em Seattle foram alvo de operações policiais sob pretexto de combate ao tráfico de pessoas.
Laços com as Olimpíadas de 2028
Los Angeles sediará os Jogos Olímpicos de 2028, agravando os impactos. Durante os Jogos de 1984, houve aumento da militarização policial e criminalização de jovens negros e latinos, o que Sheehan relaciona às condições que eclodiram após o espancamento de Rodney King em 1991. Desde o anúncio das Olimpíadas, aluguéis em Inglewood dispararam com a construção do SoFi Stadium.
Moradores relatam aumentos de aluguel, despejos e pressão de imobiliárias que compram imóveis de proprietários negros e latinos endividados. Sheehan afirmou que a coalizão NOlympics LA cresce para tornar a cidade pouco receptiva a megaeventos.
Resistência e protestos
Na Cidade do México, aluguéis sobem com a conversão de imóveis para Airbnb e a chegada de nômades digitais. Durante o Congresso da FIFA em Vancouver, centenas protestaram; a Pivot Legal Society destacou que três hotéis de baixo custo com quase 300 pessoas seriam fechados por causa da Copa. Macintyre mencionou a cumplicidade da FIFA com o genocídio em Gaza e a morte de mais de 400 jogadores palestinos.
O sindicato de trabalhadores do SoFi Stadium votou greve às vésperas da Copa. Quintero, do People’s Football Club, afirmou: “A FIFA é um sintoma do capitalismo. Estamos pedindo a abolição da FIFA. O futebol é do povo.” O clube realiza partidas em parceria com organizações locais para dar visibilidade a questões de justiça social.