Na quinta-feira (18), uma série de ataques com drones ucranianos atingiu Moscou, provocando explosões e incêndios em refinarias a menos de 15 quilômetros do Kremlin. As imagens, amplamente compartilhadas nas redes sociais, mostram a fumaça densa sobre a capital russa e revelam falhas nas defesas aéreas — aparentemente compostas por três anéis de proteção — que foram penetradas por drones baratos e produzidos em massa. O incidente marca um momento em que o presidente russo, Vladimir Putin, não consegue mais se isolar das consequências diretas da guerra.

Impacto imediato: danos materiais e ambientais

Os ataques causaram danos significativos: o telhado de uma refinaria foi arrancado, e diversos incêndios queimam na região. Além do risco ambiental, a destruição afetará o abastecimento de combustível, o que pode gerar longas filas em postos de gasolina em uma cidade que o Kremlin buscava proteger das agruras do conflito. A situação é agravada pela chuva negra que cai sobre carros em Moscou, conforme mostram vídeos divulgados por russos.

Descontentamento popular e falha na comunicação

O fluxo incessante de registros dos ataques nas redes sociais, apesar das tentativas das autoridades de limitá-los, expõe uma crescente dissidência entre a população moscovita. A gestão de mensagens do Kremlin falhou em conter a divulgação das imagens, alimentando a instabilidade política. Desde que um pequeno drone atingiu o Kremlin em maio de 2023, o horizonte de Moscou foi ofuscado pela Ucrânia, levando até mesmo a uma drástica redução no desfile do Dia da Vitória no mês passado.

Reação de Zelensky e o papel de Trump

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, descreveu os ataques como resposta ao bombardeio incessante da Rússia, que na segunda-feira (15) atingiu o complexo da igreja mais antiga e sagrada de Kiev. Após a cúpula do G7 na França, Zelensky parece ter praticamente eliminado suas expectativas em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que oscilou entre indiferença e apoio. No entanto, Zelensky obteve uma informação crucial: a sugestão, ainda vaga, de que a Ucrânia poderia produzir sob licença sistemas de defesa aérea e mísseis dos EUA e da Europa, que enfrentam escassez de estoques e demora na substituição. Isso indica uma relação mais transacional, na qual Kiev pode construir armas que as fábricas da Otan produzem de forma lenta e cara.

Negociações de paz em impasse

Não está claro se Trump ainda busca a paz, especialmente porque o Kremlin, até agora, o desprezou. Os europeus mantêm esperança de que um enviado de um país descrito pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como “potência média” possa reativar as negociações. O Reino Unido, a França e a Alemanha emitiram uma declaração há 11 dias reiterando suas condições de longa data para um acordo, incluindo a exigência inicialmente inaceitável de Moscou de um cessar-fogo unilateral. A expectativa de que Putin encontre uma saída é perpétua, diante do impasse no campo de batalha e da dificuldade de defender o espaço aéreo russo.

Decisões equivocadas de Putin e o futuro da guerra

Ao longo do conflito, Putin tomou decisões consideradas equivocadas: acreditar que Kiev cairia em semanas; confiar que as linhas de suprimento do exército resistiriam ao colapso no final de 2022; desperdiçar mão de obra nos ataques brutais em Donbas entre 2023 e 2024, que deixaram o exército russo com problemas de recrutamento; e acreditar que Trump, por meio de bajulação, extrairia concessões úteis da Ucrânia. A inteligência ocidental estima que a guerra já tenha causado meio milhão de mortes entre russos, para conquistar cerca de 0,7% do território ucraniano.

Pressão interna e cenário de fragilidade

Putin tem sido forçado a admitir os danos econômicos causados pelos ataques ucranianos, a aceitar que o território não está sendo conquistado tão rapidamente quanto desejado e a lidar com o descontentamento devido aos bloqueios da internet. A Rússia passou por grandes mudanças políticas após guerras fracassadas, como a retirada da Primeira Guerra Mundial, a derrota no Afeganistão e o conflito na Chechênia. O jornal moscovita Moskovsky Komsomolets alertou no mês passado que “grandes derrotas geopolíticas às vezes são mais úteis do que vitórias brilhantes”.

Opções limitadas de escalada

Existem poucas maneiras práticas para Putin intensificar o conflito sem agravar os problemas existentes. Atacar países da Otan Oriental seria arriscado, já que o exército russo enfrenta dificuldades para subjugar um vizinho menor. O uso de armas nucleares táticas provocaria a ira dos EUA, da Europa e possivelmente da China, com ganho estratégico pequeno. A Rússia já ataca a Ucrânia com todos os recursos disponíveis; o uso do míssil balístico Oreshnik é limitado pelos estoques.

Responsabilidade exclusiva de Putin

Ao longo de 26 anos no poder, Putin projetou a imagem de estrategista imperturbável, mas a magnitude do desastre além de seus muros e na frente de batalha, com ataques de médio alcance que interrompem linhas de suprimento e causam escassez na Crimeia, influencia suas decisões. Contudo, isso pode não resultar em um apelo por solução imediata — pode provocar o oposto. O próprio Putin declarou que um acordo e a captura de Donbas não são “mutuamente exclusivos”, que a guerra terminará em breve e que poderia acolher o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder como mediador. Mesmo assim, sua resposta aos danos econômicos foi sugerir novas retaliações. O próximo passo de Moscou, à medida que o horizonte se torna incerto, deve ser encontrar uma maneira de aceitar a fragilidade projetando força — uma tarefa difícil, que recai exclusivamente sobre Putin.