A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulgou nota nesta sexta-feira (19.jun.2026) manifestando preocupação com a decisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública de solicitar o retorno de delegados cedidos a órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A entidade afirma que a medida pode afetar instituições que utilizam esses profissionais em funções estratégicas e não enfrenta o que considera ser o principal problema da corporação: as questões estruturais da carreira.
A manifestação ocorreu após o Ministério da Justiça enviar, nesta semana, ofícios pedindo a devolução de policiais federais cedidos para auxiliar magistrados e atuar em outros órgãos públicos. O governo apresentou a medida como parte de uma diretriz de fortalecimento da segurança pública e de reforço ao combate ao crime organizado.
Contexto político
De acordo com apuração do Estadão, nos bastidores do Judiciário e entre integrantes da PF, a iniciativa tem sido interpretada como possível reação a investigações conduzidas no gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. As apurações envolvem suspeitas de desvios em aposentadorias do INSS e supostas fraudes relacionadas ao Banco Master, casos que atingiram aliados do governo.
Em abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia defendido publicamente o retorno dos delegados cedidos. Na ocasião, afirmou ter determinado ao Ministério da Justiça a convocação de policiais que estariam fora das atividades da corporação. “Eu mandei o ministro da Justiça fazer uma nota convidando todos os delegados da Polícia Federal que estão fora da Polícia Federal. Só vai ficar fora aqueles que forem secretários de Estado”, disse.
Ofícios enviados
Os ofícios foram assinados pelo secretário-executivo do Ministério da Justiça, Ademar Borges. Segundo ele, cerca de 100 pedidos de retorno foram encaminhados a mais de 50 órgãos das esferas federal, estadual e municipal. Em manifestação ao Estadão, Borges afirmou que a medida integra um processo iniciado no fim de abril para reforçar atividades finalísticas: “O processo de retorno dos policiais federais, rodoviários federais e policiais penais, seguindo a diretriz presidencial amplamente divulgada, para reforço e valorização das atividades finalísticas e de combate ao crime organizado teve início no fim de abril e continua em curso”.
Posição da ADPF
Na nota, a ADPF afirma que os delegados cedidos são selecionados pela experiência e qualificação técnica acumuladas na PF e desempenham funções consideradas relevantes para o fortalecimento de políticas públicas e da gestão estatal. A associação argumenta que o intercâmbio entre órgãos também fortalece o diálogo institucional. A entidade ressalta que o principal desafio da PF está relacionado à evasão de profissionais para outros cargos públicos.
Segundo dados apresentados pela associação, nos últimos 3 anos, 104 novos delegados ingressaram na corporação, enquanto 50 deixaram a carreira. A ADPF também aponta redução no interesse pelos concursos da PF: o número de inscritos caiu de 321 mil em 2021 para 218 mil em 2025.
Para a associação, o fortalecimento da corporação precisa de medidas voltadas à valorização da carreira, à retenção de talentos e à melhoria das condições de trabalho, e não à restrição da atuação de delegados em outros órgãos da administração pública.
“A ADPF recebe com preocupação a decisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública de solicitar, por meio de ofícios, o retorno de delegados atualmente cedidos para atuação em órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A medida impacta diretamente instituições que contam com a contribuição desses profissionais em funções estratégicas e de elevada relevância para o Estado brasileiro, bem como prejudica a própria Polícia Federal, que tem nesse intercâmbio de experiências profissionais um excelente canal de diálogo interinstitucional.”