Em artigo publicado pelo Brasil de Fato, integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e colaboradores externos analisam o impacto dos algoritmos no desenvolvimento infantil. O texto descreve o fenômeno conhecido como “Sephora Kids”, em que crianças com menos de dez anos reproduzem rotinas de skincare, dancinhas com conotação sexual e discursos de influenciadores de alta performance.
Segundo os autores, essa adultização não é um erro, mas parte do modelo de negócio das plataformas, que operam sob a lógica do capitalismo de vigilância. A infância em seu estado natural seria pouco lucrativa por ser imprevisível, enquanto a criança adultizada torna-se o consumidor ideal, com desejos de compra pré-moldados por padrões estéticos adultos. O design persuasivo das interfaces utiliza gatilhos de dopamina para manter a criança conectada, transformando marcos do desenvolvimento psicológico em métricas de inventário publicitário.
O artigo afirma que as big techs aplicam uma moderação padronizada que ignora as particularidades do desenvolvimento infantil. Isso amplifica problemas sociais como racismo, bullying, discurso de ódio, pedofilia e violência, que ganham escala sem precedentes no ambiente digital devido à velocidade, volume, alcance global e perenidade dos registros.
Os pesquisadores apontam que o lúdico é substituído pelo performático: a criança não brinca, mas produz conteúdo; não descobre, mas faz unboxing para uma audiência. O amadurecimento é forçado para caber no formato vertical da tela, gerando ansiedade e erosão da infância em favor de métricas de vaidade que atendem acionistas de empresas de tecnologia.
ECA Digital como resposta
O texto destaca que a atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente virtual (ECA Digital) representa um marco na defesa dos direitos humanos. Na prática, a nova legislação transfere a responsabilidade das famílias para as plataformas, que passam a ter responsabilidade civil objetiva. As empresas podem ser punidas se o desenho de seus produtos for inseguro ou se o algoritmo for configurado para expor vulnerabilidades ou práticas racistas.
Os autores citam a obra “Algoritmos de destruição em massa”, de Cathy O’Neil, para ilustrar o viés racista de sistemas como o reconhecimento facial, que tem dificuldade em identificar pessoas negras. O ECA Digital torna obrigatório o conceito de “segurança por design”, exigindo que as interfaces não sejam hostis à infância desde a concepção.
Para os pesquisadores, proteger a infância nas redes exige moderação específica e transparente, com limitação severa da coleta de dados de crianças e adolescentes. O artigo conclui que a regulação é um ato de soberania e cuidado, não de censura, e que somente por meio de uma regulação firme e de consciência crítica sobre a arquitetura das plataformas será possível retomar o controle sobre o tempo de crescimento humano.
Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.