Em outubro de 2020, uma operação policial no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, terminou com a morte de um bebê de quatro meses de gestação e ferimentos graves em sua mãe, Maiara Oliveira, então com 19 anos. A versão oficial da Polícia Civil, de que o disparo partiu de traficantes, agora é contestada por um projeto pioneiro de arquitetura forense conduzido pela Redes da Maré em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF).

O trabalho, financiado pelo Ministério da Igualdade Racial, usou fotos tiradas por Maykon Sardinha, coordenador do projeto Maré por Justiça, imagens de satélite e depoimentos para reconstruir a cena em modelos 3D. A conclusão, divulgada em setembro de 2025, aponta que a bala que atingiu Maiara provavelmente foi disparada por um policial, seja no nível do chão ou de uma laje, e não por criminosos posicionados atrás dela, como sustentou a corporação.

Detalhes da análise forense

A equipe de arquitetos, designers, programadores, cineastas e jornalistas analisou os respingos de sangue na parede da casa de Maiara, registrados por Sardinha. Combinando a trajetória do sangue com a posição da vítima e a localização dos policiais e supostos traficantes, descartou a hipótese de que o tiro tivesse vindo de criminosos atrás dela. As únicas possibilidades restantes foram um policial no solo ou em um andar superior.

"A versão da polícia era altamente improvável", afirmam os pesquisadores, que preferem não se identificar como peritos, mas como analistas forenses.

O vídeo com a reconstrução foi enviado ao promotor Fernando Cury, da 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Territorial da Ilha do Governador e Bonsucesso. A técnica inédita no Rio de Janeiro precisa ser validada pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (Dedit) do Ministério Público, processo ainda não concluído.

Contexto de impunidade

O caso ilustra a dificuldade de responsabilização em operações policiais no estado. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) indicam que a polícia matou 797 pessoas em 2025 no Rio. Entre 2011 e 2021, 91% dos inquéritos sobre mortes causadas por policiais foram arquivados, segundo a ONG Fórum Justiça, muitos por falta de provas ou por alegação de legítima defesa.

Em junho de 2020, o ministro do STF Edson Fachin proibiu operações em favelas do Rio, exceto em casos excepcionais, mas a medida foi ignorada. Entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025, ocorreram 1.354 operações em comunidades cariocas, sendo 42 apenas na Maré, de acordo com a Redes da Maré.

Trajetória da vítima

Maiara Oliveira, hoje com 25 anos, sobreviveu ao tiro, mas perdeu o filho, ficou 40 dias internada em estado grave e perdeu parte dos movimentos de um braço. Ela processa o estado do Rio por danos morais e estéticos, sem julgamento até o momento. O inquérito policial, com apenas 12 depoimentos, oito de policiais, segue inconclusivo na 21ª Delegacia de Polícia, em Bonsucesso.

A Redes da Maré monitora operações desde 2016, produzindo o relatório anual "De Olho na Maré". Uma ação civil pública em 2017 obteve liminar restringindo operações noturnas e exigindo câmeras nas viaturas, mas a decisão não foi cumprida.

Arquitetura forense: origem e usos

A técnica foi desenvolvida pelo arquiteto Eyal Weizman, que fundou a Forensic Architecture na Universidade de Londres. Desde 2010, o grupo investiga casos de violência, como a morte do palestino Bassem Abu Rahma em 2009, e colaborou com veículos como The New York Times e The Guardian. No Brasil, atuou em 2022 na análise do avanço da mineração na Amazônia.

Para Flavia Palladino, analista forense do projeto, a escolha do caso de Maiara deveu-se ao fato de ela ser sobrevivente. "Fiz o mestrado para trabalhar com homicídios praticados por policiais no Rio. Os casos eram arquivados, as famílias tinham que investigar", diz. Ela treinou jovens moradores da Maré para participar das reconstruções, orientando-os a minimizar o impacto emocional ao rever as cenas.

A advogada Marcela Cardoso ressalta que a arquitetura forense preenche uma lacuna: "O inquérito tinha só depoimentos de policiais. Nós trouxemos elementos para o promotor entender o ocorrido". A Polícia Civil, em nota, reiterou que o tiro partiu de criminosos, baseada em perícia própria. O Ministério Público não respondeu sobre o andamento da análise do vídeo.