O tubarão-mangona (Carcharias taurus), espécie criticamente ameaçada de extinção, encontrou no Arquipélago de Alcatrazes, na costa norte de São Paulo, uma área para acasalamento e reprodução. A conclusão é de um estudo publicado no Journal of Fish Biology por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente e do Instituto de Pesca, com apoio da Fapesp e da Petrobras.
Os cientistas registraram uma fêmea com marcas recentes de acasalamento no verão e outra grávida no inverno. Até então, acreditava-se que os mangonas acasalavam na Argentina, Uruguai e sul do Brasil e migravam para águas mais quentes do sudeste brasileiro apenas para gestação e parto. “Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, afirma Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da Fapesp no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp.
Os registros foram feitos no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, unidade de conservação criada em 2016 e gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A área é considerada essencial para a proteção da espécie e para serviços ecossistêmicos, como a provisão de alimento para comunidades de pescadores.
Metodologia e ciência cidadã
A maior parte dos dados foi obtida por meio de sistemas de estéreo-filmagens subaquáticas remotas com isca (BRUVs). Foram realizadas 315 imersões em 38 pontos do arquipélago, em profundidades de 2 a 50 metros, entre o inverno e o verão de 2022 a 2025. O estudo também contou com a colaboração de mergulhadores recreativos, num modelo de ciência cidadã. O biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo filmou nove indivíduos de tubarão-mangona durante o verão de 2024.
Os pesquisadores identificaram sexo, grau de maturidade e marcas corporais dos animais. A gravidez foi inferida pela distensão ventral das fêmeas. Um método recente, publicado nos Estados Unidos, permitiu estimar o tempo de acasalamento a partir das marcas de mordidas deixadas pelos machos durante a cópula, comparando a cicatrização em cativeiro e na natureza.
Reprodução e conservação
O tubarão-mangona apresenta canibalismo intrauterino, em que os filhotes se alimentam de óvulos e irmãos ainda no ventre. Como resultado, as fêmeas geram apenas dois filhotes por gestação, que dura de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos. Os filhotes nascem com cerca de 90 centímetros. A baixa fecundidade torna a espécie vulnerável à pesca, poluição e perda de habitat.
Segundo os pesquisadores, o arquipélago de Alcatrazes e áreas próximas, como a laje de Santos e a ilha da Queimada Grande, podem formar um corredor ecológico importante. Em 2025, Alcatrazes foi designada Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). “Nossos resultados reforçam a importância dessa unidade de conservação para proteger os tubarões costeiros e podem dar suporte para estratégias de conservação”, conclui Fabio Motta, professor do IMar-Unifesp e coordenador do projeto.
Com informações de Folha — Ambiente.