Quando muitos brasileiros já pensam em desacelerar a rotina profissional, Ricardo Cunha decidiu fazer o caminho inverso. Aos 67 anos, o ex-funcionário da Eletrobras conquistou o primeiro lugar para o cargo de analista de comércio exterior no Concurso Público Nacional Unificado (CNU), conhecido como Enem dos Concursos, e se prepara para retornar ao mercado de trabalho após mais de uma década aposentado.
A aprovação encerra uma jornada de quase sete anos de preparação e abre um novo capítulo em sua vida profissional. Agora, ele deixará o Rio de Janeiro para morar em Brasília e iniciar uma nova carreira no serviço público.
A decisão de voltar a estudar surgiu da necessidade de complementar a renda, mas também de um incômodo comum a muitos brasileiros acima dos 60 anos: a dificuldade de encontrar oportunidades de trabalho.
Depois de décadas de experiência profissional, Ricardo percebeu que a idade se tornava uma barreira no mercado privado.
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Da aposentadoria aos concursos públicos
Após se aposentar em 2013 pela Eletrobras, onde trabalhou por 30 anos no setor de pesquisas, Ricardo tentou empreender. Ao lado da então esposa, abriu um escritório de arquitetura, porém a instabilidade econômica do período acabou comprometendo o negócio.
Foi nesse momento que ele decidiu apostar nos concursos públicos.
A preparação começou em 2018, utilizando materiais gratuitos disponíveis na internet. Mais tarde, em 2020, passou a investir em cursos preparatórios on-line.
A rotina exigia disciplina. Em média, ele reservava quatro horas diárias para os estudos, conciliando a preparação com a vida pessoal.
Mas nem sempre a motivação esteve presente.
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“Pensei em desistir”
Competir com milhares de candidatos mais jovens gerou diversas inseguranças. Ricardo admite que, em alguns momentos, acreditou que talvez não houvesse mais espaço para alguém da sua idade.
“Você vê uma geração inteira se preparando desde a faculdade para concursos públicos. Em alguns momentos, pensei em desistir.”
A persistência, no entanto, falou mais alto.
A aprovação acabou se tornando também uma resposta ao preconceito enfrentado por profissionais mais velhos no mercado de trabalho.
Uma vida marcada por recomeços
A capacidade de reconstruir a própria trajetória acompanha Ricardo desde a adolescência.
Aos 15 anos, ele perdeu os pais e uma irmã em um acidente de carro, uma dor que, segundo ele, jamais desapareceu completamente.
Apesar disso, seguiu em frente, construiu uma carreira sólida e realizou sonhos pessoais, como a graduação em Engenharia Elétrica e, posteriormente, em Direito.
Agora, décadas depois, encara mais uma mudança significativa.
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Nova carreira, novos planos
Ricardo iniciará a nova função recebendo R$ 20.924,80 mensais e poderá permanecer na carreira até os 75 anos, idade da aposentadoria compulsória para servidores públicos.
Mas, para ele, a conquista vai muito além da remuneração.
A expectativa é voltar a conviver diariamente com outras pessoas, criar novos vínculos e continuar aprendendo.
A história também ajuda a desmontar a ideia de que a aposentadoria representa, necessariamente, o fim da vida produtiva.
“Eu me sinto saudável e disposto. Trabalhar novamente é uma forma de dar um novo sentido à rotina e continuar participando ativamente da sociedade”, afirmou.
Para enfrenta desafios relacionados ao etarismo, a trajetória de Ricardo deixa uma mensagem poderosa: nunca é tarde para começar outra vez.