Depois de anos de secas severas e grandes incêndios, o Pantanal volta a apresentar um cenário de cheia, especialmente na região do Paiaguás, em Mato Grosso do Sul. A área, considerada a maior do bioma, está coberta de água, com trechos acessíveis apenas por pequenos barcos ou aviões.
Segundo Ângelo Rabelo, diretor do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), há tempos a região não ficava nessas condições. Ele descreve o cenário como um “aquário natural”. No entanto, Rabelo ressalta que, apesar da cheia atual, os níveis de água já estiveram muito mais elevados no passado.
Os anos de 2023 e 2024 registraram recordes de queimadas no bioma. Em novembro de 2023, mais de 4 mil focos de fogo foram detectados, recorde para o mês. Em junho de 2024, foram mais de 2 mil focos, também o maior valor já registrado para aquele mês. Já em 2025, a situação foi consideravelmente mais amena em relação às queimadas.
Riscos para 2026
Apesar da cheia atual, o cenário pode não se manter positivo ao longo do ano. Uma portaria publicada em fevereiro declarou estado de emergência ambiental no bioma por risco de incêndios, válido até dezembro em algumas regiões. A medida permite, entre outras ações, a contratação temporária de pessoal.
A organização SOS Pantanal alertou, no início de março, que o auge da estação chuvosa não resultou em volume favorável de chuvas. Segundo a ONG, choveu menos nas cabeceiras do Pantanal, o que indica que 2026 pode apresentar seca acentuada e maior suscetibilidade ao fogo. Com base em dados do Serviço Geológico do Brasil, a entidade aponta que o bioma em Mato Grosso do Sul tende a ficar sem cheia pelo oitavo ano consecutivo. A última grande cheia considerada foi em 2018, quando a régua de Ladário registrou nível de 5,35 metros.
Outro fator de atenção para 2026 é o provável El Niño. De acordo com nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fenômeno costuma elevar as temperaturas, intensificar a seca e aumentar o risco de queimadas em partes dos estados que abrangem o Pantanal. A mesma nota indica que, em episódios de El Niño forte, há maior regularidade de chuvas em Mato Grosso do Sul e parte de Goiás, mas ao norte da região a distribuição das chuvas se torna mais irregular.
Diante desse contexto, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino intimou a União e os estados da Amazônia e do Pantanal a informar o planejamento e os preparativos para o aumento do risco de incêndios florestais.
Avulsão do rio Taquari
A cheia atual na região do Paiaguás tem origem em um fenômeno conhecido localmente como “arrombado”, tecnicamente chamado de avulsão. Ocorre quando o leito de um rio — no caso, o rio Taquari — se eleva acima de suas margens. O processo foi acelerado pela ocupação desordenada das cabeceiras, que intensificou o assoreamento do Taquari.
Duas avulsões ocorreram nas décadas de 1980 e 1990. Além dos impactos ambientais, comunidades tradicionais abandonaram fazendas que foram inundadas, inviabilizando a criação de gado na região.
Perda de superfície de água
O Pantanal é o bioma que mais perdeu superfície de água no Brasil, segundo dados do MapBiomas. Em 2024, a perda foi de 61% em relação à média histórica. A beleza das áreas alagadas e a presença de grandes animais, como onças-pintadas, não devem ofuscar os desafios ambientais que persistem no bioma.
Com informações de Folha — Ambiente.