Em audiência pública na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados, realizada nesta terça-feira (26), especialistas e vítimas das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul defenderam a criação da Política Nacional de Saúde Mental Climática (PL 6151/25). O projeto estabelece diretrizes para o Sistema Único de Saúde (SUS) prevenir e tratar traumas, ansiedade e outros impactos psicossociais decorrentes de desastres ambientais e eventos climáticos extremos.
Dados apresentados na audiência indicam que nove em cada dez municípios brasileiros registraram desastres climáticos entre 1991 e 2023. A proposta, que está em análise na comissão, prevê ações para enfrentar a crise psicossocial, o estresse pós-traumático e o trauma comunitário causados por enchentes, secas severas e queimadas, incluindo acompanhamento contínuo e acolhimento para vítimas, familiares e equipes de resgate.

A agricultora Elida Dias, que perdeu animais e precisou se deslocar de Eldorado do Sul para Sertão Santana, relatou os impactos emocionais: “As pessoas caminham de cabeça baixa, todo mundo se isolou. Eu comparo as pessoas a vasos. Tem vaso quebrado, vaso trincado e vaso faltando pedaço. Esses vasos precisam ser reconstruídos.”
O relator da proposta, deputado Gilson Daniel (Pode-ES), afirmou que a reconstrução não se limita a infraestrutura: “Reconstrução não significa apenas recuperar pontes, estradas e moradias. Também significa restaurar vínculos humanos, oferecer acolhimento psicológico e fortalecer as comunidades.”

A fundadora da ONG Time To Act, Luciana Brafman, defendeu a criação de centros comunitários permanentes em regiões vulneráveis. “Isso dá segurança psicológica às pessoas, porque elas sabem onde buscar apoio se acontecer outra tragédia”, disse.
O pedagogo de emergência Reinaldo Nascimento, da Associação de Pedagogia de Emergência no Brasil, relatou consequências emocionais em crianças após tragédias, como voltar a urinar na cama e chupar o dedo. “Muitas pessoas não entendem que essas reações são comuns depois de uma tragédia. Entram em pânico e acham que estão perdendo o controle emocional.”

A especialista Débora Noal, da Força Nacional do SUS, destacou que a retomada da produção agrícola ajuda na saúde mental dos atingidos. Ela também alertou sobre o uso inadequado de medicamentos: após desastres de 2011, uma indústria farmacêutica distribuiu sedativos para moradores; em novos deslizamentos, crianças conseguiram fugir, mas muitos adultos medicados não acordaram a tempo.
O agricultor Hélio Dias, de Eldorado do Sul, defendeu a criação de um fundo rotativo para financiar a recuperação financeira das famílias. “Quando eu cheguei, não tinha mais nada. Meu maquinário ficou cerca de 15 dias embaixo d’água. Como produzir desse jeito? Ainda temos dívidas para pagar.”
Com informações de Câmara dos Deputados — Meio Ambiente.