Estudantes universitárias relataram ter recebido anúncios direcionados em redes sociais com base em informações fornecidas a aplicativos de monitoramento menstrual. Alice Pinho Monteiro, 24, começou a ver vídeos de bebês e dicas de nomes infantis quando estava grávida de três meses, antes mesmo de saber da gestação. Luanna Beatriz Santana, 21, notou que anúncios de remédios para cólicas, absorventes e coletores apareciam em seu Instagram durante o período menstrual.

Ambas utilizaram os aplicativos Flo Health e Stardust para registrar dados do ciclo, como intensidade de dor e oscilações de apetite. As plataformas oferecem estimativas sobre período fértil e TPM com base nas informações fornecidas pelas usuárias, incluindo hábitos sexuais.

Luana Mathias Souto, pesquisadora da Universidade Aberta da Catalunha, na Espanha, estuda a relação entre tecnologia e direitos reprodutivos. Ela alerta que os algoritmos monitoram as usuárias e que o direcionamento de anúncios aproveita momentos de vulnerabilidade, como a TPM ou a menstruação. “Estão utilizando a sua biologia contra você”, afirma.

O projeto Thelma, financiado pela União Europeia e conduzido pela mesma universidade, investiga os riscos do compartilhamento de dados íntimos. Um dos focos é o Flo Health, que foi alvo de investigação da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC). A agência concluiu que o aplicativo compartilhou dados pessoais com empresas de publicidade, como a Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp.

Em redes sociais como o X, relatos semelhantes são frequentes. Uma usuária identificada como Letícia disse ter recebido vídeos sobre cuidados com idosos no Instagram no dia em que menstruou. Outra, chamada Luísa, afirmou que o aplicativo de ciclo parecia sincronizado com os algoritmos da rede, exibindo anúncio de coletor menstrual assim que os sintomas de TPM surgiram.

Não há clareza sobre quais dados as empresas utilizam nem a complexidade dos algoritmos. No entanto, os relatos indicam que as plataformas ajustam a entrega de conteúdo para coincidir com o intervalo médio de 28 dias do ciclo menstrual.

Falta de transparência e regulação

O estudo Data Not Found, conduzido pelo NetLab da UFRJ em parceria com a Universidade de Cambridge, avaliou a transparência das informações sobre publicidade dirigida nas plataformas. O resultado mostra que as filiais brasileiras dessas empresas têm os piores indicadores, comparadas às do Reino Unido e da União Europeia. Nenhuma rede social analisada ficou acima do nível “insuficiente”. Das 14 empresas avaliadas, seis sequer forneceram as informações solicitadas.

Bruno Mattos, coordenador de Projetos do NetLab, afirma que as plataformas estão construindo sistemas de publicidade direcionada cada vez mais eficientes. Uma das causas da falta de transparência é a ausência de regras para o uso de dados publicitários, o que permite às empresas dificultar o acesso a informações sobre o tratamento de dados pessoais.

O estudo aponta que as big techs atuaram contra propostas de regulamentação, como o projeto de lei das fake news, arquivado pela Câmara dos Deputados em 2024. Se aprovado, o texto obrigaria as empresas a publicar um histórico das propagandas exibidas e detalhar os critérios e fontes de informação usados nos anúncios.

IA e publicidade direcionada

Com a inteligência artificial associada ao modelo de propaganda direcionada, é possível interpretar o comportamento dos usuários nas redes. Adalberto Silvestre, gerente sênior da consultoria Avanade Brasil, explica que a IA adiciona camadas de dados para alcançar clientes específicos, indo além de informações como gênero e estado civil. Indicadores como tempo de retenção de vídeos e perfil de quem deu mais atenção ao conteúdo são usados para direcionar anúncios.

As plataformas tratam os algoritmos como diferenciais competitivos e não compartilham detalhes. “Os algoritmos são como a fórmula da Coca-Cola”, compara Silvestre.

Procurados, o Stardust afirmou que utiliza sistemas diferentes para tratar dados pessoais (como nome, email e telefone) e dados de saúde, e que não vende informações de usuários. O Flo Health não se manifestou. Representantes brasileiros da Meta e do TikTok limitaram-se a encaminhar as páginas com suas políticas de privacidade.

Com informações de Folha — Tec.