O uso de inteligência artificial na prática religiosa cristã tem crescido no Brasil, impulsionado por aplicativos que oferecem orações, reflexões bíblicas e respostas teológicas personalizadas. O país é o segundo mercado mais lucrativo para essas plataformas, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados de empresas de inteligência de mercado.

A publicitária Luana Brandão, 31, de Maceió, conta que se reconectou com a fé após começar a usar um aplicativo que envia mensagens cristãs diariamente. Evangélica desde criança, ela havia deixado de frequentar igrejas. Há um ano, recebe orações e comentários bíblicos todas as manhãs. “Tinha dificuldade para reservar um momento diário para orar e ler a Bíblia e agora resolvi o problema”, afirma.

Entre os aplicativos mais populares estão Hallow, Glorify e Magisterium AI. Eles oferecem conteúdo como citações de teóricos cristãos, trechos bíblicos e orações. O Hallow superou 4,8 milhões de downloads no Brasil desde o lançamento em 2022. De janeiro a abril de 2026, a receita do app no país chegou a US$ 400 mil (R$ 2 milhões), conforme a AppMagic, empresa de inteligência de mercado. O valor inclui compras internas, como assinaturas e desbloqueios de recursos.

O Glorify, lançado em 2021, apresenta bons índices de retenção: dos quase dez milhões de downloads, 4% dos usuários mantinham o app instalado após três meses, segundo a AppMagic. Para comparação, o Strava reteve 6% no mesmo período. Já o Magisterium AI, voltado ao público católico, somou 30 mil downloads desde setembro de 2025. Ele pertence à Longbeard, empresa que digitaliza arquivos para a Igreja Católica e a Santa Sé.

Uso entre católicos e evangélicos

Tanto evangélicos quanto católicos utilizam os aplicativos. As duas religiões são cristãs, mas diferem em aspectos como autoridade: católicos seguem a Igreja e o papa; evangélicos dão mais peso à Bíblia e à autonomia das igrejas. A engenheira Heloisa Moraes, 44, católica, instalou o Magisterium AI recentemente. “Se eu tenho dúvida sobre uma passagem bíblica, ou se quero saber como a Igreja trata de um assunto polêmico, como o casamento gay, pergunto para o aplicativo e ele responde com base nos documentos do Vaticano”, diz ela, frequentadora da Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.

Heloisa afirma que a ferramenta ajudou a quebrar sua desconfiança em relação à inteligência artificial. “Como o aplicativo foi treinado só com documentos da Igreja Católica, acredito que não esteja contaminado por conteúdo laico”, afirma.

Resistência a orações geradas por IA

Apesar da aceitação, a oferta de orações criadas por inteligência artificial gera desconforto entre alguns cristãos. Luana e Heloisa dizem que não recorreriam à tecnologia para falar com Deus. “Soaria absurdo pedir para a IA montar uma oração”, afirma Luana. “Eu me sentiria como quem pede para o ChatGPT escrever um cartão de Dia das Mães para a própria mãe”, compara Heloisa. “A relação deixa de ser pessoal e passa a ter interferência da IA.”

Iniciativas de igrejas

A Igreja Adventista do Sétimo Dia investiu em dois projetos: o chatbot Esperança, no WhatsApp, que ensina a Bíblia em português e espanhol, e o 7chat.ai, com interface similar ao ChatGPT, que responde com base na doutrina adventista. Os usuários podem criar orações sob medida escolhendo temas como prosperidade, saúde ou casamento. O pastor Jorge Rampogna, diretor de comunicação da igreja na América do Sul, ressalta que a tecnologia reproduz palavras, mas não substitui a experiência espiritual. “A máquina pode escrever uma oração, mas não pode orar.”

No último mês, o 7chat.ai registrou 94,5 mil interações com fiéis. Em um ano, o tempo médio de uso foi de 19 minutos e 48 segundos por usuário ativo por mês. Ambos os serviços são gratuitos; em troca, os usuários fornecem dados pessoais como país, gênero e idade.

Conteúdo religioso gerado por IA e monetização

Criadores de conteúdo também faturam com vídeos religiosos gerados por IA, publicados no Instagram, Facebook e TikTok. Nem sempre os materiais são identificados como produzidos por inteligência artificial. O site Tubefy, por exemplo, usa IA para criar vídeos curtos a partir de comandos dos assinantes. O fundador, um desenvolvedor brasileiro que preferiu não se identificar, afirma que o nicho religioso representa cerca de 70% da produção diária dos assinantes. “São vídeos de oração, de histórias e curiosidades bíblicas.”

O Tubefy produz cerca de 1.500 vídeos curtos e 350 vídeos longos por dia. Segundo o fundador, usuários iniciantes faturam aproximadamente R$ 800 por mês. “Uma cliente fez um canal de orações em polonês e faturou R$ 12 mil em um mês”, afirma. Cerca de 71% da população polonesa é católica.

O pastor André Lopes, 47, da Igreja Batista Ministério Ágape, no Rio de Janeiro, criou o perfil Teologiatabu no Instagram. Ele usa IA para gerar imagens de personagens bíblicos, animá-las e montar vídeos. “O público vem atraído pelo visual de Jesus e dos anjos que aparecem na tela”, diz. “Tento ensinar teologia no texto da legenda.” O projeto não gera renda, segundo ele.

Por outro lado, há críticas. A chefe de cozinha Nina Frazão, 45, evangélica da Igreja Pentecostal Chegada Cristo e Curas Divinas, na zona norte de São Paulo, afirma que alguns vídeos trazem mensagens úteis, mas não transmitem a sensação espiritual. “Eu percebo o robô falando”, diz. “Quando é um pastor no vídeo, eu sinto o Espírito Santo. Quando é IA, não.”

Com informações de Folha — Tec.