Pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com as Fundações Grupo Volkswagen e Arymax, aponta que apenas 21,3% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas, como enviar um e-mail. O dado, originalmente levantado pela Anatel, revela uma defasagem que antecede o debate sobre inteligência artificial (IA) e tende a se agravar com o avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho.

O estudo reúne cerca de 100 pesquisas nacionais e internacionais. Uma das conclusões centrais é que até 37% dos trabalhadores brasileiros podem ser impactados pela IA nos próximos anos.

Esse impacto, porém, não ocorre de forma uniforme. A tecnologia atua em duas frentes simultâneas: a automação de tarefas, quando substitui atividades humanas, e a complementação, quando funciona como apoio que amplia capacidades cognitivas e operacionais. Na prática, a IA pode tanto eliminar funções quanto redesenhar o modo como elas são executadas.

Andre Purri, CEO da Alymente, afirma que o problema mais urgente não é a substituição direta de postos de trabalho, mas o ritmo com que determinadas ocupações perdem competitividade. “A inteligência artificial não está apenas substituindo ou ampliando tarefas específicas: ela está reorganizando a dinâmica do mercado de trabalho como um todo. Seus efeitos atingem simultaneamente a demanda por mão de obra, a oferta de talentos e a própria experiência profissional”, diz Purri. “A capacidade de adaptação passa a ser tão importante quanto a qualificação técnica. O risco central não é apenas a substituição direta de funções, mas a velocidade com que determinadas ocupações deixam de ser competitivas”, completa.

O baixo índice de habilidades digitais entre a população brasileira coloca o país em posição de vulnerabilidade diante dessa transição. Com menos de um quarto dos trabalhadores preparados para interagir com ferramentas digitais básicas, a capacidade de absorver tecnologias mais sofisticadas, como aplicações de IA, fica comprometida.

Purri alerta que, sem avanços na formação digital da força de trabalho, os efeitos da inteligência artificial tendem a se distribuir de forma desigual. “A tendência é que os efeitos da inteligência artificial sejam distribuídos de forma desigual, aprofundando assimetrias já existentes no mercado de trabalho brasileiro”, diz o executivo.

O desafio, portanto, não se resolve apenas com a adoção de IA pelas empresas. Passa, antes, pela capacidade do país de preparar trabalhadores para interagir com essas tecnologias, em um momento em que a janela para essa preparação se estreita a cada ciclo de inovação.

Com informações de CartaCapital.