O filme argentino O Filho da Noiva, estrelado por Ricardo Darín, completa 25 anos de seu lançamento. A obra, que se tornou um clássico, aborda temas como inflação, crise econômica e a resistência da memória afetiva por meio da gastronomia familiar.

Na trama, Rafael Belvedere (Darín) é um homem de meia-idade, divorciado e pai de uma filha, que administra um restaurante herdado de seus pais, imigrantes italianos, em Buenos Aires. O personagem enfrenta dificuldades financeiras, com dívidas acumuladas e negociações com fornecedores. Em um momento de humor, ao falar com o vendedor de vinhos, pede caixas extras de vinho branco, justificando que “tem cliente que não entende nada”.

O contexto econômico da Argentina é retratado como desafiador. Rafael comenta que o país alterna recessão, hiperinflação e intervenções do Fundo Monetário Internacional, e que, por vezes, esses fatores coincidem. O roteiro, segundo o texto original, pouco mudou em 25 anos.

Devido aos custos, o restaurante passou a servir uma versão adulterada do tiramissu, feita com queijo cremoso de segunda linha (mendicrim) e borra de café. O pai de Rafael, Nino (Héctor Alterio), ao provar a sobremesa, critica: “O que você tem aí é um doce de queijo cremoso e borra de café. Intragável. Isso é mascarpone”.

Nino revela que guardou economias e decide usá-las para se casar na igreja com sua esposa, Norma (Norma Aleandro), que vive em uma instituição devido ao Alzheimer. Para Rafael, gastar recursos escassos em uma cerimônia para alguém que não se lembra do próprio nome parece um contrassenso. Para o pai, o rito valida que sua vida só fez sentido ao lado de Norma.

O estresse leva Rafael a sofrer um infarto e passar duas semanas na UTI. Ele cogita vender o restaurante e recomeçar. Nino então recorda que, no início, ele cozinhava enquanto Norma atendia os clientes, conduzindo cada um à “melhor mesa”, fazendo-os sentir-se especiais. O pai também se sentiu único ao lado da esposa.

Após vender o restaurante familiar, Rafael adquire outro estabelecimento em frente e anuncia que o pai pode fazer tiramissu com mascarpone sempre que quiser. O filme termina com a família unida em torno da memória e da gastronomia.

O texto original, assinado pelo jornalista Roberto Rockmann, especialista em energia e apaixonado por vinho e gastronomia, faz uma analogia pessoal: o prato emocional do autor é a rabada, que sua mãe preparava antes de ser acometida pela demência. Ele recorda que o paladar foi a última trincheira a cair diante do esquecimento.

Com informações de CartaCapital.