Empresas do setor de Cannabis medicinal têm veiculado anúncios no Instagram que contrariam as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As publicações prometem efeitos como melhora do sono, alívio de dores e aumento de foco e energia, e em alguns casos questionam a eficácia de medicamentos tradicionais para transtornos psiquiátricos, como o Venvanse.

Uma reportagem da Folha condicionou o algoritmo de uma conta na plataforma para receber esses anúncios patrocinados. Durante uma semana, os conteúdos apareceram repetidamente, muitos deles sugerindo que produtos à base de Cannabis seriam alternativas superiores a remédios controlados.

Regras da Anvisa

A Anvisa classifica canabinoides como CBD (canabidiol) e THC (tetrahidrocanabinol) como substâncias sujeitas a controle especial. A propaganda desses produtos é permitida apenas para profissionais de saúde habilitados a prescrever ou dispensar os itens, sendo vedada a divulgação direta ao público. As peças publicitárias identificadas, no entanto, são direcionadas a consumidores finais.

Casos específicos

A empresa Click Cannabis, com 754 mil seguidores no Instagram, publicou um anúncio que ataca as canetas emagrecedoras, afirmando que causam perda de massa muscular e recuperação de peso. O post sugere que a Cannabis seria uma opção mais segura. Em nota, a Click Cannabis afirmou que "opera de acordo com a legislação vigente e com estrita observância às normas da Anvisa" e que todas as receitas são prescritas por médicos credenciados.

A empresa Blis, com 288 mil seguidores, sugere que produtos de Cannabis podem substituir medicamentos tarja preta para insônia. Em sua defesa, a Blis declarou que não vende nem faz publicidade de Cannabis medicinal, mas realiza "revisão contínua de suas comunicações" e que sua comunicação é "institucional, informativo e educativo". Ao clicar no link do anúncio, o usuário é direcionado ao site da empresa, que promete consulta médica em poucos minutos e vende a plataforma como um meio de obter o produto rapidamente.

Ambas as empresas ocultam essas publicações de seus perfis públicos — elas aparecem apenas como sugestão do algoritmo para usuários com interesse no tema. Nos feeds, são exibidos conteúdos sobre estudos científicos e depoimentos de pacientes.

Outro anúncio, direcionado a caminhoneiros, promete estímulo psicológico durante viagens noturnas e afirma: "Você não vai cair no exame toxicológico".

Especialistas e evidências científicas

A médica Juliana Bogado, da Sociedade Internacional de Pesquisa em Canabinoides (ICRS), explica que os canabinoides — e não a planta inteira — são usados na medicina. Ela destaca que as aplicações aprovadas pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA) incluem epilepsia refratária, dor crônica, dor neuropática e esclerose múltipla, além de náuseas e vômitos na quimioterapia. "Promessas de melhora da libido ou ganho de massa muscular não têm embasamento científico. Já os estudos clínicos sobre o TDAH estão em fase inicial. Não se pode afirmar que funciona", afirma.

Allan James Paiotti, biólogo e CEO da Cannect, reforça que tratar a Cannabis como um remédio milagroso "atrapalha médicos e pacientes". Ele lembra que os canabinoides mimetizam moléculas do corpo humano, reduzindo efeitos colaterais, mas que o tratamento exige acompanhamento médico.

Uma revisão de estudos publicada em 2021 no periódico Psychiatric Services concluiu que as evidências atuais são insuficientes para recomendar a Cannabis como tratamento padrão para ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático. O relatório alerta que o uso não controlado pode piorar transtornos de humor e ansiedade.

Silêncio da Anvisa

A Folha encaminhou as publicações à Anvisa e questionou a legalidade das peças. A reportagem reforçou o pedido em três ocasiões, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.