A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) intensificou o diálogo com o governo federal para defender a manutenção do cronograma de aumento das tarifas de importação de veículos elétricos e híbridos. Em carta aberta divulgada nesta sexta-feira (19), a entidade também se posicionou contra a renovação de benefícios tributários voltados à importação de kits destinados à montagem de veículos no país. O movimento ocorre em um contexto de forte expansão de marcas chinesas no mercado brasileiro, como BYD e GWM, que ampliaram investimentos e disputam espaço com montadoras tradicionais.
Contexto da política tarifária
Após anos de alíquota zerada, o governo retomou a cobrança do imposto de importação para veículos elétricos em 2024, adotando um aumento gradual. O cronograma prevê recomposição integral das tarifas nos próximos anos. Para a Anfavea, alterar as regras neste momento comprometeria investimentos anunciados desde o lançamento da política industrial para o setor. Segundo a entidade, as fabricantes instaladas no Brasil anunciaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, direcionados à eletrificação, pesquisa, engenharia, descarbonização e ampliação da cadeia de fornecedores.
Estoques elevados e entrada de novos fabricantes
Um dos argumentos centrais da associação é o aumento dos estoques de veículos importados, que chegaram ao equivalente a 150 dias de vendas em maio deste ano. A Anfavea afirma que algumas empresas estariam aproveitando a fase final das tarifas reduzidas para antecipar importações antes da conclusão do cronograma de recomposição tributária. Esse movimento ocorre enquanto novas marcas continuam a ingressar no país: apenas no primeiro trimestre de 2026, onze fabricantes iniciaram operações no mercado brasileiro.
Produção nacional versus importados
A disputa se intensifica no momento em que as montadoras instaladas ampliam a produção local de veículos eletrificados. Dados da Anfavea indicam que os modelos eletrificados produzidos no Brasil representaram 26% das vendas do segmento em 2025 e já alcançaram 40% em 2026. Paralelamente, os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025. O cenário evidencia uma disputa entre dois modelos de expansão da eletromobilidade: de um lado, empresas que defendem a fabricação local e o fortalecimento da cadeia de fornecedores; de outro, fabricantes que apostam inicialmente na importação de veículos ou de conjuntos parcialmente montados para acelerar a entrada no mercado.
Importação de kits industriais sob críticas
Outro ponto de tensão envolve a importação de kits industriais utilizados na montagem de veículos. A Anfavea considera que esse mecanismo pode ser útil na fase inicial de instalação de uma fábrica, mas alerta que seu uso prolongado reduz incentivos para a nacionalização de componentes e o desenvolvimento de fornecedores locais. A entidade defende o encerramento das cotas que permitiam a importação desses kits sem recolhimento integral de tributos e se posiciona contra a criação de novos mecanismos que possam substituir esse benefício.
Desafios para o governo
A discussão ocorre em um momento em que o governo busca ampliar a participação dos veículos de baixa emissão no mercado brasileiro sem comprometer os investimentos industriais anunciados. De um lado, a maior concorrência tende a ampliar a oferta de modelos e pressionar os preços. De outro, as montadoras instaladas argumentam que a previsibilidade regulatória é fundamental para justificar investimentos de longo prazo em fábricas, centros de engenharia e fornecedores nacionais. A decisão sobre eventuais mudanças nas tarifas poderá influenciar o ritmo de nacionalização da produção de veículos eletrificados e o posicionamento do Brasil na cadeia automotiva global nos próximos anos.