O mercado de renda fixa brasileiro oferece atualmente títulos públicos atrelados ao IPCA com retorno de 8% ao ano, taxa que, segundo o estrategista Matheus Spiess, da Empiricus Research, embute um prêmio de risco elevado. Em participação no programa Giro do Mercado, do Money Times, na última quarta-feira (10), Spiess afirmou que esse patamar não é sustentável e já sinaliza um risco de calote implícito nas contas do governo.

“O fato de termos títulos longos do governo brasileiro oferecendo IPCA + 8% ao ano não é sustentável, não é normal, não é saudável, e já começa a embutir um prêmio de risco de calote”, declarou. Para ele, a origem do problema está no desequilíbrio fiscal doméstico, agravado pela ausência de uma âncora fiscal crível.

Cenário macroeconômico pressionado

O Ibovespa, que atingiu máxima histórica de quase 200 mil pontos em 15 de abril, acumula queda de 15% desde então. O movimento reflete a deterioração das expectativas para a política monetária e o aumento da aversão ao risco, impulsionados por fatores como o conflito no Oriente Médio e as incertezas fiscais internas.

Segundo Spiess, o Banco Central precisa fazer um “trabalho duplo” na falta de uma âncora fiscal, o que gera custos elevados para a economia real. “Por conta da pressão inflacionária da guerra, mas por conta da irresponsabilidade fiscal doméstica também”, afirmou.

Expectativas para a Selic

O mercado reduziu as apostas em novos cortes na Selic. O último Boletim Focus, divulgado em 8 de julho, projeta taxa terminal de 13,25% ao ano. Spiess considera essa projeção otimista e avalia que, no cenário atual, chegar a 14% já seria um “lucro”. No início do ano, a expectativa era de uma Selic terminal em torno de 12%.

Questão fiscal ofuscada, mas urgente

Embora temas como guerra e eleições tenham desviado a atenção do ajuste fiscal, Spiess ressalta que o histórico de contas públicas estouradas do governo continua sendo um “problema gigantesco”. Em ano eleitoral, a discussão tende a ser evitada, mas o analista defende que um pacote de ajustes será necessário, independentemente de quem ocupar o poder, e deve vir em 2027.

Impacto do Oriente Médio

Spiess prevê que o conflito no Oriente Médio deve se normalizar no curto prazo, com um acordo que libere o Estreito de Ormuz. No entanto, a infraestrutura destruída levará anos para ser reconstruída, mantendo um prêmio geopolítico sobre o barril de petróleo. “Você já ‘disruptou’ a cadeia permanentemente”, afirmou, comparando o cenário ao da década de 1970.

O estrategista acredita que, mesmo com parte da oferta sendo escoada por rotas alternativas, a dependência de Ormuz continuará pressionando os preços da commodity e, consequentemente, a inflação global, com reflexos na política monetária brasileira.