A agressiva intervenção diplomática e militar do governo dos Estados Unidos nas Américas, apelidada de 'Doutrina Donroe', tem gerado mais violência na região, aumentado a impunidade entre forças de segurança locais e agravado os riscos relacionados a cartéis e facções criminosas, de acordo com análise do projeto Dados de Ocorrência e Localização de Conflitos Armados (ACLED), compartilhada com o Intercept.

Segundo os analistas sênior para a América Latina do ACLED, Sandra Pellegrini e Tiziano Breda, a pressão dos EUA sobre o crime organizado está acelerando a disseminação de abordagens militarizadas de segurança. Eles afirmam que a crescente volatilidade do ecossistema do crime organizado deve impulsionar um aumento da violência durante o restante do governo Trump, possivelmente comprometendo melhorias de curto prazo obtidas com abordagens de linha dura.

A 'Doutrina Donroe', distorção da Doutrina Monroe de 1823, tem sido usada para justificar ataques contra barcos civis no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, o ataque à Venezuela e sequestro de seu presidente, operações da CIA no México, operações conjuntas de combate a cartéis no Equador (chamadas de 'Operação Extermínio Total') e o aumento de operações militares e de inteligência em outras partes da América Latina.

O relatório aponta que, em países onde as fontes de receita dos cartéis são diversificadas, as estratégias militarizadas levam a resultados contraproducentes, como fragmentação de grupos e intensificação da concorrência. No Equador, a captura ou morte de líderes de gangues resultou em proliferação de grupos dissidentes: o número de gangues subiu de 24 em 2023 para 37 no final de 2025. Após a extradição de José Adolfo Macías, líder do Los Choneros, para os EUA, o grupo Los Lobos invadiu redutos rivais, incitando mais violência.

Cartéis no México e na Colômbia estão adotando guerra aérea com drones armados contra forças de segurança. No México, ataques com drones aumentaram 567% entre 2023 e 2025. Na Colômbia, o aumento foi de 10.600%, passando de um ataque em 2023 para pelo menos 107 em 2025.

A campanha ilegal de ataques a barcos pelos militares dos EUA no Caribe e no Pacífico resultou em 62 ataques a supostos barcos de drogas desde setembro de 2025, matando 205 civis. O ataque mais recente, em 30 de maio, no Pacífico, matou três pessoas.

Forças de segurança regionais alinhadas aos EUA também usam ataques remotos. Segundo os analistas, formas de violência remota, como bombardeios aéreos e uso de drones no Haiti, expõem civis e aumentam o número de mortos em conflitos entre gangues e forças de segurança.

Pellegrini e Breda afirmam que Trump promove uma 'resposta linha dura à criminalidade' e um 'clima de impunidade' que leva à violência estatal descontrolada. Operações de forças de segurança mataram quase 6.900 pessoas no ano passado, o maior número desde 2018.

Sob a 'Doutrina Donroe', o governo Trump intimidou o Panamá e ameaçou Canadá, Colômbia, Groenlândia e possivelmente Islândia, além de aumentar ameaças a Cuba. Procuradores federais da Flórida denunciaram o ex-líder cubano Raúl Castro e outros cinco pela derrubada de dois aviões cubanos há 30 anos. O governo também alega que Cuba é uma ameaça militar. Parlamentares democratas resistem e alertam que o governo busca pretexto para invasão. O deputado Jim Himes (Democrata-Connecticut) classificou a alegação como 'insana' e questionou o benefício para ação militar.

Com informações de Intercept Brasil.