O cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, afirmou que os ataques do governo americano ao Pix ajudam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tornar a defesa da soberania nacional algo palpável. Segundo ele, o vaivém do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na relação com o Brasil ocorre na esteira de disputas internas de poder no governo americano.
Descoordenação no governo Trump
Casarões explicou que as ações dos EUA contra o Brasil já haviam começado no ano passado e que o governo Trump atua de forma descoordenada. “Há muitos núcleos de interesse dentro do governo, cada um tocando suas agendas setoriais”, disse. Ele destacou que o secretário de Estado, Marco Rubio, opera uma política específica para a América Latina, na qual o Brasil é tratado como rival. “Tanto que foi quem menos se engajou com Lula”, acrescentou.
O cientista político ressaltou que, embora parte das ações seja calculada, há também um timing influenciado por disputas internas. “Tendemos sempre a olhar para tudo que Trump faz como parte de uma estratégia. Claro que parte disso é calculado, mas existe também um timing que vai ao sabor de disputas internas do governo”, afirmou.
Postagem com Flávio Bolsonaro
Questionado sobre a postagem de Trump com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no dia do anúncio das tarifas, Casarões classificou o episódio como “o ponto mais estranho”. Ele ponderou que Trump pode ter calculado que impulsionaria Flávio, mas lembrou que, na reunião com o senador, Trump elogiou Lula. “Então não sei o quanto Trump está entendendo o tamanho do impacto dos atos dele para a dinâmica eleitoral do Brasil”, disse.
Potencial de ajudar Lula
Para Casarões, o novo tarifaço e os ataques ao Pix têm potencial para beneficiar Lula novamente, como ocorreu no ano passado. Ele lembrou que, quando os EUA designaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, Flávio Bolsonaro conseguiu tomar a dianteira da narrativa. “Ficaria muito difícil o governo Lula criticar a decisão de Trump sem parecer que estava ‘defendendo bandido’”, avaliou.
No entanto, com a chegada das tarifas e o vídeo do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugerindo a troca do Pix por um modelo americano, Lula conseguiu entrar na ofensiva. “Flávio vai aos EUA, vira a página e coloca o governo na defensiva, mas agora com as tarifas é de novo o bolsonarismo quem está se defendendo, e de maneira meio histérica”, afirmou.
Pix como arma eleitoral
O cientista político considera que Lula ganhou o Pix como uma “arma eleitoral de bandeja”. Ele explicou que a questão do Pix fala de soberania, por ser um mecanismo de pagamentos desenvolvido pelo Brasil que incluiu milhões de pessoas no sistema bancário. “Tem uma questão de orgulho nacional, que por muito tempo o próprio bolsonarismo tentou capitalizar”, disse. “Há duas semanas, eu pensava que ficaria muito difícil Lula defender soberania no abstrato. A questão do Pix materializa a defesa da soberania em algo que todo mundo usa, sai do abstrato.”
Denominação de facções como arma do bolsonarismo
Casarões reconheceu que a denominação de CV e PCC como terroristas ainda pode ser uma arma forte para o bolsonarismo, já que segurança pública é um tema central no debate eleitoral. Ele alertou, porém, para o perigo de Trump tomar outras medidas, abrindo precedente para intervenções econômicas, jurídicas ou militares dos EUA contra o Brasil. “O que tem que ser calculado por eles é se uma interferência mais ostensiva dos EUA com base nessa decisão vai de fato ajudar o Flávio ou contribuir para a posição do governo Lula”, ponderou.
Riscos de intervenção
Embora considere o risco de intervenção pequeno, Casarões apontou que a designação de facções como terroristas torna mais tangível o congelamento de ativos financeiros de empresas suspeitas de relação com elas. “O grande problema é esse, abrir a possibilidade de uma interferência pela via econômica e ter um impacto que transborde para todo o sistema, desde fintechs a bancos e o próprio Pix”, afirmou.
Protagonismo da política externa
O cientista político comentou que a máxima de que “política externa só dá voto no Burundi” ficou ultrapassada. Ele lembrou que, em 2018, Jair Bolsonaro trouxe temas de política externa para a campanha, como promessas sobre a Venezuela e o alinhamento com Trump. Agora, segundo Casarões, a política externa volta a importar porque os EUA se debruçam sobre a América Latina de maneira fundamentalmente nova. “Não é a Doutrina Monroe do século XIX; é muito mais que isso. A extensão dos instrumentos que os EUA têm hoje é muito maior. São capazes de retirar empresas do setor financeiro, penalizar autoridades com restrição de visto e de acesso ao sistema financeiro — caso da Magnitsky — e de designar grupos como terroristas e abrir portas para intervenção. E Trump usou praticamente tudo contra o Brasil”, concluiu.
Com informações de InfoMoney.