A pousada Toca do Lobo, localizada na Serra da Chapadinha, interior da Bahia, foi alvo de um segundo ataque em pouco mais de um mês. Desta vez, os criminosos derrubaram paredes e atearam fogo a um dos imóveis. O episódio foi registrado no dia 6 de junho por uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que foi ao local após receber denúncia de incêndio. Os ambientalistas Alcione Correa e Marcos Fantini, proprietários da pousada e líderes do movimento pela criação de um Refúgio de Vida Silvestre na serra, não estavam presentes — haviam deixado o local após o primeiro atentado, em 1º de maio, por questões de segurança.
Detalhes do ataque
De acordo com o gerente regional do ICMBio no Nordeste, Carlos Felipe Abirached, a equipe conseguiu acessar a área por estar com um veículo com tração nas quatro rodas. "Constatou que várias paredes haviam sido quebradas e que havia sido colocado fogo em um dos imóveis", afirmou Abirached. A Polícia Militar e a Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental (CIPPA) também foram acionadas, mas não conseguiram chegar ao local devido a um atoleiro na estrada.

Histórico de violência
Na madrugada de 1º de maio, um grupo armado invadiu a pousada, ameaçou os ambientalistas e roubou computadores, celulares, HDs, rádios e uma pistola legalizada. Os criminosos também cortaram a internet, destruíram o sistema de energia solar (baterias, placa solar e disjuntores) e as armadilhas fotográficas que poderiam ter registrado a ação. Parte dos equipamentos foi queimada. Após o ataque, Alcione e Marcos fugiram por uma trilha e não retornaram.
Alcione Correa, em vídeo enviado à reportagem, manifestou indignação com a violência simbólica: "Eles fizeram questão de destruir os símbolos da Reserva da Biosfera da UNESCO, de destruir aquele mosaico lindo... O simbolismo dessa violência, desse ódio, dessa ganância". A Toca do Lobo é reconhecida desde dezembro de 2024 como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO. O casal foi incluído no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas do governo federal.

Contexto da luta ambiental
A Serra da Chapadinha, ao sul da Chapada Diamantina, é considerada essencial para a segurança hídrica da Bahia e para a conservação de espécies ameaçadas, como o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae). Desde 2023, Alcione e Marcos lideram a mobilização "Salve a Serra da Chapadinha" para criar uma unidade de conservação que proteja a área da mineração, desmatamento, grilagem e especulação imobiliária.
A suspeita dos ambientalistas é de que o novo ataque seja uma retaliação à consulta pública para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Serra da Chapadinha, aberta em 1º de junho pelo governo da Bahia. A consulta, com prazo de um mês para contribuições virtuais, já registrou mais de 240 contribuições nas duas primeiras semanas, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia (SEMA-BA). A pasta informou que não há previsão de consultas presenciais, mas que seguem reuniões virtuais com atores locais, como a Associação de Produtores da Serra da Chapadinha.

Reações e apoio institucional
O casal foi convidado pelo governo federal e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para a cerimônia do Dia do Meio Ambiente, em 10 de junho. O ministro João Capobianco destacou o movimento em defesa da Serra da Chapadinha e lembrou o atentado contra os ambientalistas. "O Brasil assistiu com indignação ao atentado... informo com prazer que o governo da Bahia já iniciou, com apoio do nosso ministério, os trabalhos para transformar a área em uma unidade de conservação estadual", declarou Capobianco. O presidente Lula e o ministro posaram para fotos com o casal e a camisa "Salve a Serra da Chapadinha".
O gerente regional do ICMBio, Carlos Felipe Abirached, expressou preocupação: "Nós andamos muito preocupados... essas agressões mexeram com eles, mexeram conosco. Poderia ser qualquer um de nós, do terceiro setor, órgão público". A Polícia Civil da Bahia ainda aguarda laudo de perícia, mas informou ter "novas informações" sobre o caso, mantido em sigilo para não comprometer as investigações.