A violência política de gênero continua sendo um dos principais obstáculos para a participação feminina na vida pública brasileira. De acordo com levantamento do Instituto Alziras, 92% dos acusados por esse tipo de violência são homens, o que evidencia a desigualdade persistente nos espaços de poder.
Em ano eleitoral, os ataques ganham destaque nas redes sociais e nos ambientes institucionais, tendo mulheres e pessoas LGBTQIA+ como alvos frequentes. Apesar disso, lideranças como a deputada federal Erika Hilton e a vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP) seguem atuando em pautas de grande repercussão, como a proposta pelo fim da escala 6×1.

No episódio do podcast Pauta Pública, a jornalista Andrea Dip conversou com Amanda Paschoal sobre os desafios da participação política em meio ao avanço da extrema direita. A partir de sua própria experiência como vítima de violência política, a vereadora analisou o papel das fake news, a morosidade das instituições na responsabilização dos agressores e os riscos para a democracia.
“As candidatas agora vão sofrer com as mentiras, com as fake news e com a misoginia, com a violência de gênero que é tão presente na nossa sociedade e tão explorada pela extrema direita”, afirmou Paschoal.

Trajetória e entrada na política
Amanda Paschoal nasceu no extremo sul de São Paulo, perto do Grajaú, e cresceu em Aracaju (SE). Retornou a São Paulo aos 18 anos e, por meio de subempregos e redes de militância, chegou ao ativismo pela educação popular. Participou do cursinho popular Transformação e ingressou no curso de gestão de turismo no Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Lá, ajudou a fundar o coletivo de arte TRANSarau.
Posteriormente, começou a trabalhar com Erika Hilton, inicialmente na recepção do mandato e depois como assessora. Em 2021, quando Hilton se elegeu vereadora como a mulher mais votada do país, Paschoal tornou-se sua principal assessora. Acompanhou Hilton na campanha para deputada federal e foi para Brasília. Em 2024, Hilton a convidou para assumir a candidatura à Câmara Municipal de São Paulo, dando continuidade ao legado político.

Paschoal destacou a atuação de Hilton na Comissão de Direitos Humanos, ao lado do vereador Suplicy, e a criação de uma CPI para investigar a violência contra pessoas trans na capital paulista. A campanha eleitoral de Paschoal foi intensa, mas bem recebida pela população.
Reações à nomeação de Erika Hilton
Em 11 de março, Erika Hilton foi nomeada presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. O episódio gerou reações de ódio, inclusive de mulheres cisgênero. Paschoal avaliou que Hilton foi corajosa ao pleitear o cargo e que o ódio direcionado a ela reflete uma construção social que explora a transfobia.
“Quando homens ocuparam a presidência da comissão, não houve essa mobilização nem esse nível de violência”, comparou. A vereadora ressaltou que Hilton é a deputada federal que mais apresentou projetos voltados às mulheres, com 26 propostas, e que a violência sofrida não pode ser separada de sua identidade de gênero.
Paschoal considerou que a parte mais tensa do embate já passou, mas o problema persiste. A extrema direita, segundo ela, tenta deslegitimar o trabalho de Hilton e questionar sua capacidade. Por outro lado, a repercussão trouxe visibilidade à comissão, o que pode mobilizar mais pessoas em torno da pauta.
Sobre o feminismo radical que se opõe à presença de mulheres trans, Paschoal classificou a postura como um “desserviço”. Citou o caso da autora J.K. Rowling, que financia ações no Reino Unido para impedir o reconhecimento de pessoas trans como mulheres. “Ao levantar essa bandeira, acabam se somando às mesmas estruturas que fazem mulheres cis e trans enfrentarem violência e desigualdade”, afirmou.
Responsabilização e morosidade institucional
Paschoal destacou que, na violência política de gênero, 92% dos acusados são homens, segundo o Instituto Alziras, o que demonstra um ambiente hostil para as mulheres na política. Ela criticou a morosidade das instituições na punição dos agressores, citando casos como o de Pablo Marçal e do governador Tarcísio de Freitas, que divulgou uma fake news no dia da eleição sobre presidiários votarem em Guilherme Boulos.
A própria vereadora foi alvo de transfobia na primeira sessão plenária da Câmara Municipal, quando o vereador Lucas Pavanato (PL-SP) a chamou de “homem”. Ela acionou o Ministério Público e a Corregedoria, mas a Corregedoria não admitiu o processo. O relator, também do PL, usou inteligência artificial para elaborar o parecer que recomendava a inadmissibilidade da denúncia. O Ministério Público alegou falta de competência, remetendo o caso à Câmara.
“Nós precisamos pensar em estratégias para dar mais rapidez à resolução desse tipo de violência”, defendeu. Para ela, as punições, quando existem, são “quase simbólicas” e não têm o peso necessário para coibir novas agressões.
Paschoal concluiu que as candidatas nas próximas eleições sofrerão com mentiras, fake news, misoginia e violência de gênero, práticas que ocorrem sem a devida responsabilização.
Com informações de Agência Pública.