Um provável ataque hacker que gerou alertas falsos de evento extremo da Defesa Civil, utilizando a palavra “misantropia”, expõe a fragilidade do sistema de segurança do país e pode comprometer a confiança da população na plataforma de alertas, segundo especialistas ouvidos pela Folha. O incidente ocorreu entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado (20), atingindo moradores de Curitiba (PR), São Paulo (SP), Sergipe e Distrito Federal, entre outras localidades.
O governo federal reconheceu o problema. O secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, afirmou neste sábado (20) que o caso “é muito ruim para o sistema, ainda mais pensando que a gente trata com a segurança das pessoas, com vidas”. Segundo ele, isso não é bom para a confiabilidade, sendo “muito ruim”.
Governo admite risco à confiabilidade
Em nota, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que as mensagens de alerta não foram emitidas pelas autoridades competentes. “Não há, neste momento, qualquer motivo para preocupação por parte da população em decorrência das mensagens recebidas”, diz o comunicado. A Defesa Civil apura o ocorrido e adota providências.
O governo estima que foram emitidos dez tipos de alertas falsos, que chegaram a milhões de pessoas, embora não seja possível precisar quantas efetivamente receberam os comunicados, segundo Wolff.
Especialistas alertam para consequências
Eduardo Mario Mendiondo, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres no Estado de São Paulo (Ceped) da USP, considera o ataque particularmente grave por mostrar vulnerabilidades no acesso ao sistema e por ocorrer às vésperas da chegada do El Niño. “Ainda não estamos em época de estação chuvosa, mas imagine se isso ocorrer em um período em que as pessoas se preparam em função dos alertas? Estamos falando de milhões de pessoas afetadas”, disse. Mendiondo destacou a importância de sistemas robustos e com investimentos para garantir segurança, afirmando que “um sistema que chega a milhões de pessoas precisa ser robusto”.
O advogado José Milagre, analista de cibersegurança e perito digital, apontou que o maior risco é a perda de credibilidade: “Se as pessoas passarem a desconfiar dos avisos, podem ignorar comunicações legítimas em situações reais de enchentes, tempestades ou outros desastres, o que aumenta significativamente o risco à segurança da população”. Sobre a investigação, ele avaliou que ainda é cedo para conclusões, mas a Polícia Federal tem preparo para identificar a origem do ataque.
Tecnologia Cell Broadcast e contexto
A plataforma Defesa Civil Alerta, que utiliza tecnologia Cell Broadcast, foi retirada do ar por volta da 1h30 de sábado, sem previsão de retorno até que haja plena segurança após a troca de senhas, conforme Wolff. Diferentemente de SMS, o Cell Broadcast interrompe funções dos aparelhos, dispara alarme sonoro e vibratório, e atinge todos os celulares em área de risco com sinal 4G ou 5G, independentemente de cadastro.
Em São Paulo, a tecnologia foi adotada pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) após a chuva de fevereiro de 2023 em São Sebastião, que deixou 65 mortos. A Anatel reforçou que o sistema de alertas é relevante para a proteção da população, cabendo às prestadoras apenas a transmissão nas áreas definidas pelas autoridades.