Uma notificação de alerta extremo disparada pelo sistema da Defesa Civil na noite de sexta-feira (19) e na madrugada de sábado (20) causou confusão e preocupação em moradores de cidades como São Paulo, Curitiba, Brasília e Aracaju. Em vez de informar sobre risco de desastre natural, a mensagem exibia a palavra "misantropia" ou variações como "misantropi4". O termo, de origem grega, significa aversão ou desprezo pela espécie humana, sem qualquer relação com alertas de emergência.

O secretário nacional da Defesa Civil, Wolnei Wolff, afirmou que "tudo leva a crer" que houve um ataque hacker e declarou ter acionado a Polícia Federal. A plataforma foi tirada do ar por volta de 1h30 de sábado, sem previsão de retorno. "Quando ele voltará ao ar? Quando a gente tiver plena segurança de que foi capaz de fazer a troca das senhas para que tenha o mínimo de segurança de que os ataques não ocorrerão novamente", disse Wolff a jornalistas.

Detalhes do incidente

Segundo Wolff, nove alertas foram emitidos por meio da tecnologia cell broadcast, que envia mensagens a todos os celulares em determinada região, e um outro comunicado foi feito pelo sistema mais antigo de SMS, direcionado a aparelhos cadastrados. O secretário descartou a hipótese de que o ataque partisse da conta de um funcionário da Defesa Civil Nacional. "Tudo nos leva a crer que foi um ataque hacker, um crime cibernético", afirmou. Até o momento, o governo federal não identificou danos estruturais ao sistema de alertas.

O Ministério da Integração, ao qual a Defesa Civil Nacional é vinculada, trabalha no desenvolvimento de uma nova versão do sistema, mas não há prazo para conclusão. Wolff não detalhou o cronograma: "Eu não conseguiria aqui afirmar exatamente o dia em que essa versão vai ser concluída, mas nós estamos trabalhando nisso".

Riscos à credibilidade

O episódio levanta preocupações sobre a confiança da população nos alertas oficiais. O analista de cibersegurança José Milagre, coordenador do núcleo especializado em crimes cibernéticos da CyberExperts, alertou que, se as pessoas passarem a desconfiar dos avisos, podem ignorar comunicações legítimas em situações reais de enchentes, tempestades ou outros desastres. "Isso aumenta significativamente o risco à segurança da população", disse Milagre. O próprio Wolff reconheceu que a invasão afeta a confiabilidade do sistema e classificou o fato como "muito ruim".

Como funciona o sistema

O Defesa Civil Alerta utiliza a tecnologia cell broadcast, desenvolvida pela Anatel em parceria com o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad). O método envia avisos simultâneos para todos os aparelhos conectados a uma antena de telefonia com sinal 4G ou 5G, sem necessidade de cadastro prévio. A geolocalização é feita pela rede: quem estiver dentro da área de cobertura da antena que retransmitir o alerta receberá a mensagem automaticamente, seja morador local ou não. Em alertas extremos, a notificação aparece como um pop-up na tela do celular, interrompendo qualquer outro uso.

Reação nas redes

Nas redes sociais, o incidente gerou uma mistura de susto, confusão e humor. O assunto "Defesa Civil" ficou entre os mais comentados do X (antigo Twitter) na manhã de sábado, ao lado da repercussão da vitória do Brasil sobre o Haiti pela fase de grupos da Copa do Mundo 2026.