Na madrugada do último sábado (20), um alerta extremo enviado para celulares de ao menos oito estados brasileiros causou confusão e despertou moradores. A mensagem continha apenas a palavra 'misantropia' e um forte sinal sonoro. O incidente levanta questionamentos sobre a segurança do sistema oficial de alertas públicos, segundo análise publicada na Folha pelo diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Entenda o incidente

Por volta das 23h45 de sexta-feira (19), os primeiros alertas começaram a chegar em celulares de Curitiba. Nas duas horas seguintes, aparelhos no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pará, Mato Grosso e outros estados também receberam a notificação, até que a plataforma foi tirada do ar. De acordo com o colunista, a hipótese mais provável é que a credencial de um usuário com acesso total ao sistema IDAP (Interface de Divulgação de Alertas Públicos), operado pelo Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, tenha sido roubada.

Fragilidades do sistema de alertas

O sistema é atualmente coordenado pela Anatel em parceria com prestadoras de celular, o Sindicato Nacional de Empresas de Telefonia Móvel, o MIDR e a Presidência da República. A operação técnica é executada pela ABR Telecom. Para enviar um alerta, um agente credenciado acessa o site do IDAP, seleciona gravidade, local, escreve a mensagem e clica em enviar. No Brasil, há pelo menos 180 instituições cadastradas e mais de 600 usuários com acesso à ferramenta, bastando informar usuário e senha. O colunista classifica essa configuração como uma 'receita para o desastre'.

Comparação com sistema americano

Os Estados Unidos mantêm sistema semelhante, mas com exigências mais rígidas. O acesso requer procedimento formal e autenticação criptográfica. Cada credenciado assina termo de responsabilidade individual e sua credencial tem prazo limitado. Após um incidente no Havaí em 2018, as mensagens passaram a exigir dupla supervisão: antes do envio, são autenticadas por um supervisor, com autorização de duas hierarquias distintas. No Brasil, não há mecanismo equivalente.

Possíveis consequências

O artigo alerta para o risco de 'cry wolf' — falsos alarmes em sistemas oficiais podem elevar as fatalidades em até 29% e os feridos em até 32%, conforme estudo dos EUA. O colunista também critica a centralização de poderes tecnológicos pelo governo federal, argumentando que centralização e cibersegurança caminham em direções opostas. O alerta falso mostrou que o sistema falou indevidamente em nome dos entes federativos, que precisaram se manifestar para negar responsabilidade. Para o autor, o incidente serve como alerta sobre a fragilidade da cibersegurança no país.