Oitenta anos após a aliança do Eixo na Segunda Guerra Mundial, Alemanha e Japão voltam a aumentar suas capacidades militares e a estreitar laços de defesa, em um movimento impulsionado pela desconfiança em relação aos Estados Unidos e pelo temor diante da ascensão da China e da postura agressiva da Rússia.
A cooperação entre os dois países deve ganhar impulso durante a reunião dos líderes do G7 em Evian, na França. O processo inclui compartilhamento de conhecimento, tecnologia e armamentos, como drones e helicópteros, considerados essenciais para os esforços de rearmamento de ambas as nações.
Contexto histórico
Após a derrota na Segunda Guerra, Alemanha e Japão focaram na reconstrução e no crescimento econômico, delegando aos EUA e aliados a maior parte da responsabilidade por sua segurança. Na Alemanha Ocidental, os EUA mantiveram grandes bases militares e dezenas de milhares de soldados durante a Guerra Fria. Após a reunificação, o país passou a gastar mais com programas sociais do que com defesa.
No Japão, uma Constituição imposta pelos EUA sob o general Douglas MacArthur proibiu a manutenção de forças armadas, exceto para fins defensivos, levando à criação das Forças de Autodefesa. Movimentos antimilitaristas ganharam força nas décadas seguintes, promovendo paz e diplomacia.
Mudança de cenário e novas ameaças
Esse sentimento começou a se reverter nos últimos anos, especialmente após a invasão russa da Ucrânia em 2022 e a postura cada vez mais assertiva da China sob Xi Jinping. As ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de abandonar compromissos de segurança na Europa e sua disposição para negociar com Xi aceleraram o impulso em direção ao rearmamento nos dois países.
Thomas Berger, professor da Universidade de Boston, afirmou que a derrota na Segunda Guerra “destruiu seus ideais e crenças no império e na militarização”. No entanto, a volatilidade de Trump aumentou a ansiedade entre os líderes conservadores de ambos os países. “Existe esse medo justificável de que os Estados Unidos possam abandoná-los”, disse Berger.
Novos líderes e aumento de gastos
O chanceler alemão Friedrich Merz, pouco antes de assumir o cargo, liderou um esforço para suspender os limites ao endividamento público e ampliar drasticamente os gastos militares. Em alguns anos, o orçamento de defesa alemão poderá superar, somado, o da França e o do Reino Unido. Já o Japão, com orçamento de aproximadamente US$ 58 bilhões neste ano, está entre os maiores gastadores em defesa do mundo.
A primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, conservadora e nacionalista, assumiu o poder no ano passado com promessas de revitalizar as forças armadas. Ela posicionou mísseis de longo alcance no sul do Japão e reverteu proibições do pós-guerra à exportação de armamentos.
Cooperação bilateral e novas alianças
Tanto Merz quanto Takaichi buscaram manter relações cordiais com Trump, mas também avançaram em alianças militares independentes de Washington. O Japão fechou um acordo de US$ 6,5 bilhões para fornecer navios de guerra à Austrália e negocia exportações militares com Filipinas e Indonésia. A Alemanha estreitou laços com a Ucrânia no desenvolvimento de novos armamentos e pediu ajuda à França para obter dissuasão nuclear.
Boris Pistorius, ministro da Defesa alemão, disse em março, durante visita a uma base naval japonesa, que países como Alemanha e Japão, “que continuam comprometidos com a ordem internacional baseada em regras, precisam se aproximar ainda mais e deixar claro o que defendem”.
Reações internas e críticas
Na Alemanha, pesquisas recentes indicam que a maioria vê o mundo como mais perigoso que na Guerra Fria e que dois terços da população apoiam o aumento dos gastos militares, embora as Forças Armadas enfrentem dificuldades para recrutar jovens. No Japão, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra as políticas de segurança de Takaichi, temendo a abolição do Artigo 9º da Constituição, que renuncia à guerra.
Nahoko Hishiyama, 37, organizadora de protestos, afirmou que as políticas de Takaichi “são profundamente preocupantes, porque buscam transformar o Japão em uma potência militar”. Já Alexandra Sakaki, pesquisadora do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, disse que o rearmamento exigirá novas mudanças de mentalidade, como repensar a relação entre militares e sociedade e avaliar se a opinião pública apoiará políticas como o alistamento obrigatório.
China e Rússia acusaram Takaichi de tentar ressuscitar o militarismo da Segunda Guerra. Ela, porém, afirma que as medidas são necessárias diante do ambiente de segurança “mais severo e complexo” desde aquele período, citando China e Coreia do Norte. “Hoje, nenhum país consegue proteger sozinho sua própria paz e segurança”, declarou.
Os Estados Unidos, por sua vez, aplaudiram as mudanças. Trump, que há muito pressiona aliados a gastar mais com defesa, elogiou o aumento dos gastos alemães, mas brincou que uma Alemanha remilitarizada “talvez não agradasse aos líderes americanos que derrotaram a Alemanha nazista”. “Não tenho certeza de que o general MacArthur diria que isso é algo positivo”, afirmou.