Comprar o álbum da Copa do Mundo foi o primeiro passo de uma jornada inesperada para pais que não acompanham futebol. A decisão veio da vontade de incluir o filho, que começou a jogar na escola justamente no ano do torneio, em uma atividade que todos os colegas já tinham. O receio de que a criança ficasse de fora ou fosse alvo de privação social pesou mais do que o desconhecimento esportivo.
O álbum custou pouco mais de trinta reais, e cada pacote com sete figurinhas saiu por sete reais — um real por unidade. A primeira leva de pacotes foi aberta com entusiasmo pelo menino, que logo perguntou se havia o jogador Cristiano Ronaldo. Sem encontrar o craque português, o interesse se voltou para as repetidas, que serviriam para trocar com os amigos. O foco nas interações sociais, e não apenas na coleção, foi visto pela mãe como um sinal positivo de aprendizado.

A colagem das figurinhas virou um momento familiar. A mãe organizou as peças em ordem alfabética, enquanto o pai ensinou o filho a identificar bandeiras e ler siglas em inglês. O álbum se transformou em uma ferramenta improvisada de geografia e ortografia, com descobertas como a ilha de Curaçao, no Caribe. A tarefa de descolar os adesivos coube à mãe, que usou as unhas e, depois, um estilete para agilizar o processo.
A colagem também gerou pequenos conflitos pedagógicos. Enquanto o pai insistia na precisão para não colar torto, a mãe defendia a aceitação do imperfeito. O filho, por sua vez, se esforçou para melhorar a cada figurinha, e a aparição de um brasão prateado raro do Uzbequistão introduziu noções de valorização e humildade. A quantidade de espaços vazios, porém, logo cansou o menino, que só pôde deixar a atividade após colar tudo e arrumar a bagunça — uma lição de resiliência, segundo a mãe.

Na escola, as trocas tinham regras: local e horário definidos, mas sem interferência dos professores nas negociações. O filho enfrentou a rejeição dos colegas às figurinhas de Cabo Verde, porque os amigos não queriam "foto de jogador feio". A situação abriu espaço para um sermão materno sobre beleza interior, discriminação e preconceito, ampliando o alcance educativo do álbum.
A avó contribuiu com trinta pacotes, e a mãe levou o filho a um posto de troca no shopping, onde ele interagiu com outros colecionadores. Em uma única transação, conseguiram 23 figurinhas novas. O álbum completo exigiria 980 cromos oficiais, sem contar os especiais de refrigerantes, um número que reforçou a máxima familiar: "se não completar tudo, não faz mal".

A busca por figurinhas raras revelou o lado financeiro da brincadeira. Em uma feira, a mãe descobriu que a figurinha de Cristiano Ronaldo e a FWC 8 valiam até trinta vezes mais que as comuns. A constatação de que a indústria capitalista transformara a coleção em um mercado caro — diferente dos tempos em que vinham com chiclete — gerou uma reflexão sobre o valor da experiência em si.
O texto, publicado originalmente na Agência Pública em 5 de junho de 2026, integra a coluna de crônicas do veículo e é assinado por Ed Wanderley e Ludmila Pizarro. A narrativa mistura humor e observações do cotidiano para mostrar como um simples álbum de figurinhas pode ensinar lições que vão muito além do futebol.
Com informações de Agência Pública.