O escritor chileno Alberto Fuguet, de 63 anos, lançou recentemente pela editora Tusquets o romance Certos garotos, que se passa em Santiago do Chile em 1986, durante a ditadura de Augusto Pinochet. A obra acompanha dois garotos em busca de ascensão em um contexto marcado por toque de recolher, repressão, censura e violência civil.
Tomás Mena ingressa na faculdade de Letras para se libertar da família tradicional, enquanto Clemente Fabres, estudante de Jornalismo, deseja voltar à Inglaterra e publica um fanzine que circula entre livrarias e lojas de discos. Quando se conhecem, em meio ao agravamento do clima político, ambos buscam na cultura uma forma de escapar da opressão.
Em entrevista por e-mail, Fuguet afirmou que a música, a literatura, a arte e o cinema foram forças democráticas e libertadoras que as ditaduras não conseguiram enxergar. “A ideia de que a música pop era descartável e sem importância é fascinante. Estavam alheias à realidade”, disse. Para ele, a música pop funcionou como um “cavalo de Troia” para a diversidade e uma forma de traçar um rumo para o futuro.
Sobre os temas de amizade masculina, homossexualidade e ambiguidade, o escritor explicou que o romance é pessoal e autobiográfico em relação ao que gostaria de ter vivenciado. “É uma mistura de como o afeto entre homens é vivenciado hoje, já que se tornou normalizado, com o passado, quando era uma espécie de raridade, um mistério”, afirmou.
Fuguet destacou que, nos anos 1980, poucos tinham coragem de expressar sua verdadeira essência, e que há muitos romances sobre ser vítima, mas para alguns jovens trata-se mais de ser herói. Quanto à comparação entre passado e presente, ele considera o progresso notável em termos de diversidade, mas se sente sortudo por ter vivido uma grande era de ouro cultural, analógica, com rádio, fitas cassete e videoclipes que traziam liberdade.
Questionado sobre a obrigação moral dos romancistas, Fuguet respondeu: “Amá-los. Respeitá-los. Ser honesto. Cuidar deles. Deixar os personagens viverem e cometerem erros.” Sobre o mal na literatura, ele afirmou que o mal existe e sem drama não há histórias, mas que abraçar apenas o mal é uma armadilha. “O que é complicado, arriscado, transgressor, é abraçar a luz”, concluiu.
Com informações de Revista Cult.