Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, a rede estadual de ensino da Grande São Paulo registrou quase 37 mil afastamentos de professores por questões de saúde mental. O número equivale a 58 profissionais fora das salas de aula por dia. As informações foram obtidas pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) por meio da Lei de Acesso à Informação, junto à Diretoria de Perícias Médicas do estado.
Educadores ouvidos por correspondentes da Agência Mural em Embu das Artes, Itapecerica da Serra, Cidade Tiradentes e Jardim São Luís apontam fatores como jornadas diárias de 10 a 12 horas, salários baixos, violência física e moral, infraestrutura precária e cobrança excessiva por resultados como causas do adoecimento.

O professor de educação física Sílvio Benedito, 60, que atua há 22 anos na escola municipal Edvaldo dos Santos Dantas, foi diagnosticado em 2024 com ansiedade e depressão associadas à síndrome de burnout. Ele relata que a frequência cardíaca disparava ao se aproximar da escola. Após ser intimidado por uma pessoa em situação de rua na quadra da escola, ficou seis meses afastado.
Em Itapecerica da Serra, a professora Talita da Silva Vitoriano Leal, 35, precisou se afastar por 10 meses para tratar um pólipo nas cordas vocais e transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Em agosto de 2024, perdeu a voz completamente por 45 dias. Ao retornar, teve uma crise de ansiedade na escola e foi readaptada para funções administrativas em uma das unidades, mas na outra manteve as atividades docentes.

A professora Angela Saraiva, 43, de Embu das Artes, afirma que a pressão do governo estadual é o principal fator de estresse. Ela cita o uso de plataformas digitais como o Centro de Mídias SP e o sistema “Farol do Desempenho”, que avalia indicadores como frequência e metas. Segundo ela, a escola onde leciona está sempre no vermelho, gerando cobranças intensas. Angela desenvolveu ansiedade, insônia, palpitações e dores no corpo que podem ser fibromialgia, e precisa tirar licenças esporádicas de até sete dias.
Outra professora, que pediu anonimato por medo de represálias, relatou ter sido agredida por uma aluna em 2024 em uma escola particular na Vila Mariana. Ela levou socos e mordidas ao tentar conter a estudante. A direção da escola, segundo ela, minimizou o ocorrido. A educadora foi diagnosticada com síndrome de burnout e pediu demissão em junho de 2024 para preservar a saúde.

O contexto de pressão se intensifica com a Resolução SEDUC nº 08/2026, que prevê a rescisão contratual de professores temporários (categoria “O”) que se ausentem por 30 dias ou mais, além de dar aos diretores o poder de decidir sobre a continuidade do vínculo. A categoria “O” compreende docentes contratados de forma temporária na rede estadual.
Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que 16.216 professores estavam em licença médica em 2025 e que mantém ações como o “Programa Cuidar de Quem Educa”, que oferece teleatendimento em psicologia e psiquiatria. Segundo a pasta, foram realizados 875.424 atendimentos psicológicos e 52.599 teleconsultas psiquiátricas até janeiro de 2026. A secretaria também afirma que 8.846 docentes estão atualmente readaptados na rede estadual. As prefeituras de Embu das Artes e Itapecerica da Serra não responderam aos pedidos de informação até a publicação.
Com informações de Agência Pública — leia a matéria original.