Dois homens presos horas após uma chacina ocorrida em 25 de abril no município de Lábrea, no Amazonas, apontaram em depoimento à polícia que o crime foi encomendado por integrantes da família Coelho Diniz, de Minas Gerais. O ataque deixou três mortos, entre eles um adolescente de 14 anos, e um sobrevivente.

Confissão e contradição

Os detidos, Lucas Pessoa dos Santos, 26, e Edenilson Silva dos Santos, 34, confessaram a autoria do triplo homicídio. Lucas, que trabalha nas fazendas dos Diniz desde 2020, afirmou em depoimento que o mandante foi Moisés Diniz, filho do empresário Alex Sandro Coelho Diniz. Quando interrogado, Lucas respondeu diretamente: "O Moisés". Ao ser questionado novamente, reafirmou: "Moisés Diniz".

No entanto, em audiência de custódia no dia seguinte, Lucas mudou a versão e alegou ter sido pressionado pelos policiais a indicar o mandante. O advogado que o orienta é o mesmo que defende o gerente da fazenda de Diniz.

Família nega participação

Moisés Diniz negou à reportagem ter sido o mandante. Ele confirmou que Lucas trabalhava para ele e disse que soube da participação do funcionário no crime, mas não sabia que seu nome havia sido citado. Em nota, seu advogado Vinicius Soalheiro afirmou que Moisés "nega veementemente qualquer participação" e que seu nome não consta como investigado. A nota também esclarece que ele não move nem responde a ações judiciais relacionadas a conflitos agrários.

O pai de Moisés, Alex Diniz, não respondeu aos contatos da reportagem. Alex é filiado ao PL e suplente do senador Cleitinho (Republicanos-MG). Um de seus irmãos é o deputado federal Hercílio Coelho Diniz (MDB-MG). Cleitinho disse não ter conhecimento do caso, e Hercílio não foi localizado.

Contexto de conflitos agrários

O crime ocorreu próximo à BR-317, na divisa de Lábrea com Boca do Acre, região marcada por disputas fundiárias. A família Coelho Diniz possui ao menos quatro propriedades no local e já foi autuada pelo Ibama por desmate ilegal, com multas que somam R$ 29 milhões. Uma decisão judicial favorável aos fazendeiros foi anulada em 2024, o que teria reavivado os conflitos.

A vítima Josias Albuquerque de Oliveira, 45, tinha disputa fundiária com os Diniz e já havia sobrevivido a um atentado em 2021. No dia da chacina, ele estava em um carro com o sobrinho de 14 anos, Antonio Renato Vieira de Souza, 32, e outro ocupante que sobreviveu. Segundo o inquérito, os pistoleiros ficaram de tocaia por ao menos cinco horas na mata e dispararam rajadas de fuzil AR15 e tiros de pistola Taurus. O veículo caiu em um rio. O sobrevivente relatou que o adolescente foi morto ao tentar fugir a nado, ouvindo-o pedir socorro antes de ser atingido.

A mãe do adolescente, Maressa Ferreira, 31, disse à reportagem: "Ele era a coisa mais importante que eu tinha na minha vida, e fizeram essa crueldade. Por que fizeram essa crueldade com meu filho? Ele não tinha culpa e pediu para sobreviver."

Investigação e poder local

A polícia apreendeu uma motocicleta usada no crime, registrada em nome de Paulo Oliveira da Silva, administrador da empresa Agropecuária CD, de Moisés Diniz. Paulo havia sido preso dez dias antes da chacina por porte ilegal de arma e foi liberado após audiência de custódia. O advogado dele, Pedro Henrique Ramos de Moura, é o mesmo que passou a defender os pistoleiros e alegou que eles foram coagidos a confessar.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas informou que um inquérito específico foi instaurado para apurar a participação de mandantes, mas quase dois meses após os crimes ninguém foi notificado. Parentes das vítimas e lideranças locais temem que a apuração não avance devido ao poder da família. A região tem histórico de grilagem e violência: desde 2017, mais de 20 pessoas foram assassinadas na área, segundo a Pastoral da Terra. "Aqui é uma ausência total do Estado. Grandes fazendeiros entram com ação contra os pequenos, a gente recorre à Justiça e a Justiça fica enrolando", afirmou Cosme Capistano, da Comissão Pastoral da Terra.

O Grupo Coelho Diniz, dono de uma rede de supermercados em Minas Gerais com faturamento estimado em R$ 2,3 bilhões, detém 24,9% das ações ordinárias do Grupo Pão de Açúcar. A família não tem relação com o empresário Abílio Diniz. O Grupo Pão de Açúcar afirmou que não comentaria o caso.