O Acre enfrenta um desafio particular na campanha de vacinação contra o HPV. Em 2024, enquanto a média nacional de cobertura foi de 86% entre meninas e 74,5% entre meninos, o estado registrou os menores índices do país: 59% e 50%, respectivamente. A origem do problema remonta a 2017, quando 74 adolescentes apresentaram sintomas como dores de cabeça, desmaios e convulsões após receberem a vacina.

Uma investigação conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que os componentes da vacina não causaram os problemas. Doze jovens com sintomas mais graves foram submetidos a exames avançados, como videoencefalograma. Dois irmãos foram diagnosticados com epilepsia de origem genética; os demais apresentavam crise psicogênica não epilética (CNEP), uma resposta física involuntária ao estresse, sem relação biológica com o imunizante.

A coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, Renata Quiles, que já atuava na gestão na época, relata que o número de notificações de possíveis efeitos adversos saltou de 14 para 127 em seis meses, impulsionado pelo que era veiculado na imprensa e pelo medo da população. "Não tive a mesma abertura para trazer à luz o que foi concluído, mostrar o resultado da investigação da USP", lamenta.

Impacto da desinformação

O episódio foi explorado pelo movimento antivacina, que espalhou o medo para todo o país, segundo a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Mayra Moura. A vacinação nas escolas, considerada a estratégia mais eficaz para adolescentes, foi interrompida. No Acre, em 2018 e 2019, menos de 10% dos adolescentes procuraram os postos de vacinação.

Mayra Moura explica que a CNEP é uma reação de estresse vacinal documentada desde 1992 em diversos países, mas que as redes sociais amplificam a desinformação, atribuindo caráter de sequela ao imunobiológico. "A vacinação estava a todo vapor, dando super certo; depois disso, a vacina de HPV 'flopou'", afirma.

Segurança comprovada

A gerente médica de vacinas da MSD, Aline Okuma, destaca que a taxa de eventos adversos da vacina contra o HPV é baixa e a efetividade é de 90% ou mais. Estudos em países que introduziram a vacina mostram queda na incidência de câncer por HPV. "Nós já temos 20 anos de estudos e de acompanhamento dessa vacina", complementa.

O Brasil possui um sistema de farmacovigilância que investiga todos os eventos supostamente atribuíveis à vacinação. A maioria dos casos são sintomas leves, como dor local e febre. Eventos graves passam por análise de causalidade coordenada pelo Ministério da Saúde. Na maioria das vezes, a causalidade não é comprovada, sendo considerada apenas uma coincidência temporal.

Recuperação da confiança

As coberturas vacinais no Acre voltaram a crescer graças ao trabalho constante dos profissionais de saúde. Um dos focos é a capacitação dos profissionais, incluindo técnicas de comunicação para lidar com a hesitação vacinal. A enfermeira Evelin Plácido, CEO da CapacitaImune, ressalta: "Não adianta ser um profissional excelente se você não souber se comunicar com as pessoas".

Em Porto Walter, cidade de 11 mil habitantes na fronteira com o Peru, a cobertura em 2025 chegou a 72% entre meninas e 68% entre meninos. O coordenador de Imunizações Anderson Cleiton Baraúna usou estratégias inovadoras, como o "Cinema da Imunização": adolescentes vacinados ganhavam ingresso para filmes com pipoca e refrigerante. Uma equipe vacinava na porta do cinema. "Vacinamos mais de 200 adolescentes. Foi um sucesso", comemora.

Urgência na prevenção

Estudo recente mostra que os cânceres causados pelo HPV matam cerca de 7,5 mil brasileiros por ano. O câncer de colo de útero, o mais comum, deve ter 19 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028. O Acre é o quinto estado com a maior taxa de incidência. A vacina do SUS protege contra quatro tipos do vírus, incluindo os de maior risco (16 e 18). A Organização Mundial da Saúde considera que a doença pode ser eliminada com altas coberturas vacinais e rastreamento.

A vacina está disponível para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos prioritários. O Ministério da Saúde instituiu o resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos; mais de 217 mil jovens já foram imunizados.

Com informações de Agência Brasil — Saúde.