O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na segunda-feira (15) que um acordo provisório para encerrar o conflito no Oriente Médio foi assinado entre os EUA e o Irã. O documento, ainda não divulgado, prevê a extensão do frágil cessar-fogo anunciado em abril por mais 60 dias e a reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã desde fevereiro, após ataques dos EUA e de Israel. No entanto, dúvidas persistem sobre a efetividade do pacto, com armadores afirmando que a confiança para retomar o tráfego marítimo pode levar semanas.
Detalhes do acordo provisório
Segundo Trump, que falou ao chegar à França para a cúpula do G7, o vice-presidente JD Vance participará da cerimônia formal de assinatura em Genebra na próxima sexta-feira (19). Vance descreveu o memorando como um “documento muito genérico” e afirmou que os detalhes serão divulgados nos próximos dois dias. O acordo inclui um “pacote de alívio de sanções muito significativo” para o Irã, segundo Vance, que acrescentou que Trump pode decidir divulgar o conteúdo antes de sexta-feira.
Autoridades americanas e iranianas indicaram que o pacto pode trazer benefícios econômicos substanciais ao Irã, como suspensão de sanções, descongelamento de ativos estrangeiros e a criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões, financiado por países vizinhos do Golfo que abrigam bases militares americanas. Em contrapartida, autoridades americanas, sob condição de anonimato, afirmaram que o Irã terá de atender a exigências como nunca construir uma arma nuclear e cortar o apoio a milícias como o Hezbollah, no Líbano. O Irã nega a intenção de desenvolver armas nucleares e afirma que cedeu ao concordar em retomar as discussões diplomáticas sobre seu programa de enriquecimento de urânio, interrompidas pela guerra.
Próximas negociações
Os negociadores abordarão questões complexas durante a próxima fase, que ocorrerá dentro do prazo de 60 dias, como o futuro do programa nuclear iraniano. No entanto, duas outras questões usadas por Trump e pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para justificar a guerra — o fim do apoio do Irã a grupos armados regionais e a contenção de seu programa de mísseis — não devem estar na agenda dessas negociações, segundo o texto do acordo provisório.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, classificou o acordo provisório como um “passo importante” para cessar os combates, mas ponderou que um acordo final para uma trégua duradoura “ainda não foi fechado”.
Impacto no mercado de petróleo
O anúncio do acordo fez os preços do petróleo caírem para o nível mais baixo desde 10 de março, logo após o bloqueio do Estreito de Ormuz ter interrompido um quinto do comércio mundial de petróleo. Na terça-feira (16), o preço se estabilizou, com os contratos futuros do petróleo Brent recuando 0,3%, para US$ 82,96 o barril, durante o horário de negociação asiático. Analistas apontam que o acordo é o passo mais significativo para resolver o conflito, que já matou pelo menos 7.000 pessoas, principalmente no Irã e no Líbano, e desestabilizou os mercados globais de energia.
Reconstruindo a confiança no Estreito de Ormuz
Embora o acordo provisório possa aliviar o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, ele apenas restaura o status quo anterior à guerra. Armadores afirmam que o tráfego só será retomado quando houver convicção de que a passagem é segura. O diretor executivo da Mitsui OSK Lines, gigante japonesa do setor de transporte marítimo com frota de mais de 900 embarcações, declarou ao Financial Times que os armadores não navegarão pelo estreito até que tenham certeza de que o acordo é “substancial”.
“Considerando as experiências dos últimos dois meses, acho razoável supor que isso possa levar pelo menos algumas semanas, ou até mesmo um mês”, disse Tamura ao Financial Times antes do anúncio de Trump.
O Irã indicou que manterá o controle do estreito juntamente com Omã. Os EUA afirmaram que o estreito ficará aberto sem pedágio por 60 dias e esperam que essa disposição faça parte de um acordo final. Trump escreveu no Truth Social que navios carregados de petróleo estavam começando a sair do estreito, “seguindo pela ‘Rodovia’ do Sul, que é totalmente segura, protegida e intocada”.
Incerteza sobre o Líbano
Os confrontos entre Israel, aliado dos EUA, e a milícia Hezbollah, aliada do Irã, no Líbano, que já deslocaram 1,2 milhão de pessoas, continuam sendo outro ponto de atrito crucial. O Irã afirmou que o acordo exige a cessação total das hostilidades na região, mas Netanyahu disse que Israel manterá suas forças no sul do Líbano e conservará o direito de responder a ataques do Hezbollah.
“O Irã queria que nos retirássemos das negociações, mas eu me mantive firme”, disse Netanyahu em coletiva de imprensa na segunda-feira.
Israel não participou diretamente das negociações de paz com o Irã. Um funcionário americano afirmou que a retirada israelense do Líbano, invadido em março após a entrada do Hezbollah na guerra, não era uma condição do acordo. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, exigiu que os ataques israelenses cessem imediatamente.