Em meio a uma luta do UFC montada no jardim da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na noite de domingo que a guerra com o Irã havia terminado e que o Estreito de Ormuz estava aberto. Horas antes, Trump publicara no Truth Social uma mensagem declarando o acordo concluído, autorizando a abertura sem pedágio do estreito e a remoção imediata do bloqueio naval americano. “Navios do mundo, deem partida nos motores. Deixem o petróleo fluir!”, escreveu.
No entanto, segundo relatos de autoridades ocidentais e do Oriente Médio familiarizadas com as negociações, o anúncio foi feito antes da assinatura formal do texto, que ainda não havia sido divulgado e cuja cerimônia oficial ocorreria dias depois. Questões centrais — como o programa nuclear iraniano, sanções e a situação no Líbano — foram adiadas para negociações posteriores.

Bastidores tumultuados
O caminho até o anúncio foi marcado por tensões e reviravoltas. Na manhã do mesmo dia, Israel bombardeou o sul de Beirute, movimento que negociadores iranianos alertavam que poderia implodir as conversas. Israel justificou o ataque como resposta a projéteis disparados pelo Hezbollah, grupo apoiado por Teerã. Trump criticou a ação israelense, afirmando que “não deveria ter acontecido”, e revelou ter ligado para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para repreendê-lo. “Eu fiquei muito puto. Fiz ele saber disso”, disse Trump à Axios.
A irritação de Trump com Netanyahu crescia. Em uma ligação repleta de palavrões, o presidente americano chamou o premiê israelense de “louco”. Netanyahu, respaldado por forte apoio interno, insistia em continuar a campanha no Líbano, enquanto Trump pressionava por um acordo com o Irã.

Mediação do Catar
O Catar desempenhou papel central como mediador. Por quatro semanas, o país realizou uma diplomacia discreta, a pedido tanto de Washington quanto de Teerã. Em meados de maio, uma delegação catariana liderada por Ali al-Thawadi e Hamad al-Kubaisi viajou secretamente a Teerã para entender a posição iraniana. Em 19 de maio, os mediadores voaram para Washington, onde se reuniram com o vice-presidente JD Vance, o genro de Trump Jared Kushner e o negociador Steve Witkoff.
As negociações enfrentaram ameaças de sabotagem. Países ocidentais avisaram catarianos e paquistaneses de que Israel cogitava atacar o Irã, mas a intervenção dos EUA fez Israel recuar. O chefe do Exército do Paquistão, marechal de campo Asim Munir, juntou-se às discussões em Teerã com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o chanceler Abbas Araghchi.

Termos do acordo
As questões centrais eram três: a exigência iraniana de um compromisso para encerrar permanentemente a guerra; a disposição de Teerã em discutir a entrega de seu urânio altamente enriquecido; e o destino do Estreito de Ormuz. O Irã concordou em debater a diluição ou entrega do estoque de urânio. Em troca, os EUA aceitaram um processo gradual de alívio de sanções, atrelado ao avanço das negociações rumo a um acordo final — uma linha de vida financeira extraordinária para o regime iraniano, sob forte pressão econômica.
Documentos vazados sugeriam que o acordo proporcionaria ao Irã um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões bancado por países do Golfo, além de dispensas imediatas para o petróleo e possível alívio de sanções. Para Washington, os ganhos eram mais limitados: reabertura de Ormuz, fim dos combates e uma promessa de que o Irã não buscaria armas nucleares. A guerra já havia custado aos EUA dezenas de bilhões de dólares, pressionado estoques de munição, elevado os preços dos combustíveis e abalado o mercado global de energia.
Crise de última hora
Na primeira semana de junho, as negociações quase ruíram. Um cessar-fogo entre Israel e Líbano não se sustentou, e Israel atacou Beirute novamente. Em 9 de junho, um helicóptero Apache americano caiu perto do estreito após ser atingido por um drone iraniano, e Trump prometeu retaliação. Os dois lados trocaram fogo nas noites seguintes. Em 11 de junho, os EUA atingiram alvos no sul do Irã, e a República Islâmica fechou seu espaço aéreo, deixando mediadores catarianos presos na pista.
Após pressão de líderes regionais, Trump adiou novos ataques. Netanyahu deixou uma reunião ministerial para atender uma ligação de Trump informando que um acordo estava próximo. Dois dias depois, Trump disse que o acordo seria assinado no domingo. Os negociadores catarianos voltaram a Teerã para um último esforço de 17 horas, ameaçando várias vezes abandonar a mesa enquanto os iranianos exigiam ajustes na linguagem. Foi quando Netanyahu fez o movimento que quase implodiu tudo: ataques aéreos israelenses no sul de Beirute.
A jogada saiu pela culatra. Trump pediu que Israel parasse e os EUA ofereceram a Teerã um benefício de última hora: a retirada imediata do bloqueio aos portos iranianos, em vez da retirada gradual em 30 dias prevista originalmente.
Reações e consequências
Em Israel, políticos de todo o espectro criticaram Netanyahu por transformar o país em um “vassalo” dos EUA e classificaram sua condução do conflito como fracasso. Netanyahu levou um dia inteiro para comentar o acordo e tentou enfatizar sua independência: “Há casos em que o presidente Trump e eu não vemos as coisas da mesma forma”. Trump, por sua vez, chegou perto de ecoar os críticos mais duros de Netanyahu, afirmando durante o G7: “Você não precisa derrubar um prédio residencial toda vez que está procurando alguém”.
Na cúpula do G7 em Evian, França, líderes europeus elogiaram o acordo sem tê-lo lido, optando por não irritar Trump. O presidente americano estava de bom humor, trocando piadas com o canadense Mark Carney e o anfitrião Emmanuel Macron.
Em Teerã, a mídia estatal apresentou o acordo-quadro como prova de que o Irã havia colocado EUA e Israel de joelhos. O regime pagou caro, mas emergiu com um instrumento de pressão econômica — o controle sobre o Estreito de Ormuz — possivelmente mais importante que uma bomba nuclear. O acordo prevê suspensão de sanções e desbloqueio de bilhões em ativos via Catar, em troca do abandono da ambição por armas nucleares, algo que o Irã já havia aceitado no acordo de 2015 com Barack Obama.
Trump, ao partir para o jantar no Palácio de Versalhes, deixou claro seu cálculo político: “Assim, se der certo, eu levo o crédito. Se der errado, vou culpar o JD”.