Um acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã foi anunciado no domingo 14, dia do aniversário de 80 anos do presidente americano Donald Trump, pondo fim a semanas de intensa escalada militar e diplomática no Oriente Médio. O pacto, confirmado por Teerã apenas na segunda-feira 15, foi assinado em uma recepção no Palácio de Versalhes, na França, durante evento oferecido pelo presidente Emmanuel Macron. Trata-se de um memorando de intenções que estabelece o fim imediato das hostilidades e a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, mas adia para 60 dias a resolução de temas centrais, como o programa nuclear iraniano e o alívio de sanções.

Cessar-fogo e impacto econômico

Pelo acordo, a Guarda Revolucionária iraniana se comprometeu a não atacar navios no Estreito de Ormuz, e os Estados Unidos suspendem o bloqueio naval que sufocava as exportações de petróleo do Irã. Trump declarou que a passagem estará livre de pedágio: “Navios do mundo: liguem seus motores! Deixem o petróleo fluir”. No entanto, os iranianos só garantiram a gratuidade por dois meses, deixando em aberto o que farão depois. A notícia da trégua fez o preço do barril de petróleo cair mais de 5%, sendo negociado abaixo dos 80 dólares pela primeira vez em três meses.

Programa nuclear e sanções

O ponto mais sensível para a Casa Branca é o estoque iraniano de urânio, estimado em 440 quilos, quantidade suficiente para fabricar até dez bombas atômicas. O acordo inclui a promessa de diluição do material, seja no Irã ou em outro país, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Trump exige a paralisação total do programa nuclear iraniano, o que, segundo analistas, será difícil de obter sem novas compensações. O memorando também prevê a liberação de bilhões de dólares congelados em bancos estrangeiros e a criação de um fundo de reconstrução de aproximadamente 300 bilhões de dólares, valor equivalente ao PIB iraniano. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, sugeriu que parte desse montante seja destinada a cobrir danos causados a petroestados da região.

Líbano e Israel: fatores de instabilidade

O acordo abrange também o fim dos combates com o Hezbollah, milícia xiita apoiada pelo Irã que atua no Líbano. No entanto, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que manterá tropas no sul do Líbano, na Síria e em Gaza, contrariando os termos esperados. Netanyahu, que ficou de fora das negociações, vê o acordo como um revés político, já que contava com o conflito para impulsionar sua candidatura nas eleições de novembro, nas quais, segundo pesquisas, perde. O Irã advertiu que uma “dura resposta” virá se as agressões continuarem.

Implicações políticas e perspectivas

Trump participou do encontro do G7 na terça-feira 16, onde também esteve o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem trocou farpas. O presidente americano tenta capitalizar politicamente o acordo, embora a guerra tenha custado 30 bilhões de dólares e afetado sua popularidade às vésperas das eleições de meio de mandato. Se os pontos pendentes não forem resolvidos em 60 dias, a negociação poderá ser estendida. Analistas avaliam que um acordo definitivo pode abrir caminho para uma reaproximação entre EUA e Irã e para que monarquias do Golfo firmem acordos com Teerã. “A única coisa garantida é que será duro o caminho para a paz”, disse João Nyegray, especialista em relações internacionais.