O Conselho Nacional Eleitoral da Colômbia confirmou oficialmente, na quinta-feira (25), a vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial realizada no domingo (21).
O advogado e empresário de extrema-direita derrotou o senador de esquerda Iván Cepeda por cerca de 250 mil votos, margem inferior a um ponto percentual, em uma das disputas mais apertadas da história recente do país. Espriella assume a presidência em 7 de agosto, encerrando o governo de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história colombiana. O presidente Lula reagiu com uma nota de tom conciliatório, evitando parabenizar diretamente o eleito e dirigindo os cumprimentos ao “povo colombiano”.
A confirmação e o que Espriella representa
A vitória foi sacramentada após o escrutínio final da Registradoria Nacional, que apontou divergência de apenas 0,003% entre a contagem preliminar e a apuração oficial. O partido do candidato derrotado havia pedido a impugnação de 33 mil mesas eleitorais, mas Cepeda reconheceu o resultado na quarta-feira (24), antes da diplomação formal. “Decidi aceitar o resultado que emerge desse processo e que indica que Abelardo de la Espriella é o novo presidente da República”, declarou o senador.
Na cerimônia de diplomação, Espriella sinalizou o tom do que vem pela frente. “Os colombianos votaram por um novo estilo, uma nova forma de fazer política e exercer o governo”, discursou. “Acabou a conivência com o crime.” O presidente eleito também confirmou que não dialogará com grupos dissidentes das Farc, rompendo com a política de negociação de paz mantida por Petro. Filiado ao movimento Defensores da Pátria e apelidado de “El Tigre”, Espriella prometeu em campanha reduzir o tamanho do Estado em 40%, retomar a exploração de petróleo e adotar postura de linha dura contra o narcotráfico, inclusive com bombardeios a acampamentos armados. Ele possui nacionalidade americana e se declara admirador de Donald Trump, cujo secretário de Estado, Marco Rubio, foi um dos primeiros líderes mundiais a parabenizá-lo pela vitória.
O pragmatismo de Lula e o que ele revela
A reação do governo brasileiro veio quatro dias após o pleito, em publicação no X. Lula parabenizou o “povo colombiano pelo processo democrático e soberano” e cumprimentou Espriella pela vitória, mas escolheu um enquadramento distinto do que adotou em eleições anteriores na região. Após a vitória de Rodrigo Paz na Bolívia, em outubro de 2025, Lula enviou carta diretamente ao presidente eleito. Após a eleição de José Antonio Kast no Chile, em dezembro de 2025, parabenizou o candidato pelo nome. No caso colombiano, o destinatário explícito da mensagem foi o povo, não o eleito.
“A amizade entre o Brasil e a Colômbia, que transcende ideologias, é fundamental para a superação de desafios comuns como a preservação da Amazônia, o enfrentamento da pobreza e o combate ao crime organizado. Que sigamos trabalhando juntos em benefício dos nossos povos.”
A fórmula diplomática é calculada. Espriella chega ao poder alinhado a Trump, defende o fim dos esforços de paz com grupos armados e prometeu retomar a exploração de petróleo, agenda diretamente conflitante com os compromissos ambientais que Lula tem sustentado como bandeira regional. Com a Colômbia saindo do campo progressista, Brasil e Uruguai passam a ser os únicos países sul-americanos governados pela esquerda, segundo análise da consultoria Colombia Risk Analysis citada pela BBC News Mundo. O isolamento crescente torna o pragmatismo uma necessidade, mas não apaga o custo político de normalizar, com linguagem de “amizade”, uma guinada que ameaça acordos de paz, agenda ambiental amazônica e proteção de movimentos sociais na região.