Davi Alcolumbre, senador pelo Amapá, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do Congresso. Em 29 de janeiro de 2025, liderou a rejeição do plenário à indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, uma das maiores derrotas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — fato que não ocorria desde o século XIX. A reportagem da edição de fevereiro da revista piauí traça um perfil detalhado do parlamentar, que começou a carreira no baixo clero e hoje é presidente do Senado.

O lado cordial

Segundo a revista, Alcolumbre é descrito por interlocutores como um “bonachão”. Na juventude, após fechar a loja de autopeças da família, a Shalom Autopeças, ligava o som automotivo e promovia festas na calçada. Durante seus três mandatos de deputado federal (2003-2015), costumava deixar as sessões para confraternizar em restaurantes de Brasília, como o tradicional Dom Francisco. Quando voltava de viagens ao Amapá, exibia vídeos dançando brega e tecnobrega.

A simpatia é uma marca e uma ferramenta política. O senador Plínio Valério (PSDB-AM) relata que Alcolumbre visita seu gabinete e “se deita no sofá”. “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?” Em outra ocasião, após um desentendimento com uma senadora, ele apareceu em um evento do filho dela, vestiu calção e chuteira e entrou em campo. O ex-senador Antonio Anastasia, hoje no TCU, disse que isso “gera simpatia pela pessoa”.

Alcolumbre atende pequenos e grandes pleitos. Uma assessora do Ministério da Educação, com dificuldades na licença-maternidade, recebeu sua intercessão junto a um alto funcionário — com uma ameaça velada: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo, em pleno mês das mulheres”, segundo testemunha. Mais recentemente, distribuiu canetas de Mounjaro (medicamento para obesidade) para colegas; as canetas eram um presente do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, foragido por suspeitas de ligação com o PCC.

Carreira e controvérsias

Alcolumbre começou no PDT, depois migrou para o PFL (atual União Brasil). Integrava o baixo clero, focado em interesses locais. Em 2003, já deputado, seu nome apareceu em gravações da Polícia Federal sobre definição de valores de emendas para obras públicas com licitações fraudulentas — a investigação não avançou. Em 2013, foi interceptado negociando com o doleiro Fayed Traboulsi, envolvido em esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão; as provas foram anuladas pelo STF.

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revelou que Alcolumbre usava toda a verba de combustível do gabinete (9,3 mil reais mensais, em valores atualizados) em postos do tio Salomão, prática proibida. O gabinete argumentou que a família era dona de 70% dos postos do Amapá. Ainda hoje, alguns postos da família só aceitam dinheiro vivo. Um de seus primeiros projetos na Câmara foi dar ao Aeroporto Internacional de Macapá o nome de outro tio, Alberto Alcolumbre.

Discípulo de Sarney e traição

Alcolumbre foi mensageiro do ex-presidente José Sarney, seu mentor. Frequentava ministérios e a casa de Sarney, onde observava sem palpitar. Seu ídolo é Antônio Carlos Magalhães. Nas visitas de Sarney a Macapá, Alcolumbre era cicerone. Em 2014, com Sarney enfraquecido aos 84 anos, Alcolumbre anunciou em jantar no restaurante Piantella sua candidatura ao Senado contra “o velho Sarney”. Os colegas inicialmente acharam que era brincadeira, mas a ideia ganhou força.

Sarney lançou Gilvam Borges (ex-senador pelo PMDB) e pediu a Alcolumbre que retirasse a candidatura. Ele recusou. Gilvam Borges lembra: “As pessoas gostavam quando o Davi ia confraternizar na casa do Sarney. Ele entrava e já queria tomar conta da festa, beijava a careca do José Serra, agradava o pessoal. Ele também queria fazer contribuições, mas os bispos nem sempre deixam, né? Aí ele quis se tornar bispo.”

Uma semana antes da eleição, Alcolumbre recebeu o voto útil da esquerda, principalmente da família Capiberibe (PSB), que queria impedir o retorno de Sarney. Venceu Gilvam Borges. No mesmo pleito, soube que Camilo Capiberibe estava sem dinheiro para o segundo turno ao governo estadual. Alcolumbre ofereceu 10 milhões de reais de um empresário paulista, com a condição de que Camilo, se eleito, direcionasse contratos da Secretaria de Educação para empresas indicadas por Alcolumbre. Camilo recusou e perdeu a eleição.

Investigações e arquivamento

Na campanha ao Senado, Alcolumbre declarou 135 mil reais em gasolina nos postos do tio — volume suficiente para doze voltas ao redor do planeta. O Ministério Público apontou “ausência de comprovantes bancários” e uso de “notas fiscais frias”, algumas emitidas por empresas da família. A retransmissora do SBT (TV Amazônia Ltda., do tio José) pagou gráfica para material clandestino; a afiliada da Band TV (do irmão Josiel) também encomendou material e emitiu nota após a eleição. O Tribunal Regional Eleitoral do Amapá negou o pedido de cassação do MDB por não comprovar que o senador sabia dos crimes, mas o procurador-geral eleitoral opinou pela cassação. O caso foi ao STF, tramitou sob sigilo e foi arquivado em janeiro de 2025. A defesa sustenta a legalidade dos gastos.

“Mundiar” para subir

Gilvam Borges usa o verbo “mundiar” (espreitar, rondar) para descrever Alcolumbre: “Quando tu vês uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca. O Davi mundia bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair Bolsonaro em 2019, percebeu que havia mais degraus a galgar. Desde então, continua subindo.