Em 5 de junho de 1981, os Estados Unidos identificaram o início de uma epidemia de Aids que se tornaria global. Quarenta e cinco anos depois, o Brasil ainda registra milhares de novos diagnósticos e mortes anuais, além de conviver com o preconceito que cerca a doença.
Segundo dados do DataSUS, desde 1982, quando a epidemia chegou ao país, 1,6 milhão de pessoas conviveram com o HIV. Desse total, 1,1 milhão de casos progrediram para Aids. Até o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram em decorrência da doença.
No ano passado, 25.571 pessoas foram contaminadas e 9.157 morreram no Brasil. O boletim epidemiológico de Aids de 2025 aponta que a taxa de mortalidade foi de 3,4 óbitos por 100 mil habitantes, a menor da série histórica. De 2023 para 2024, houve queda de 12,8% no número de mortes, passando de 10.500 para 9.157.
Estigma persiste apesar dos avanços
O infectologista Alvaro Costa, do Hospital das Clínicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids, afirma que o estigma permanece como obstáculo à eliminação da doença. "Nos anos 1990, era uma doença fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, é uma doença crônica tratada: os pacientes têm uma ótima qualidade de vida, remédios disponíveis no SUS e prevenção. Mas o estigma é o mesmo. As pessoas ainda se escondem, têm medo e são julgadas", diz.
Para Costa, o estigma impede um debate sério sobre a doença e novos tratamentos. "Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do câncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, à sexualidade das pessoas e à discussão moral", afirma.
Avanços no tratamento e prevenção
Atualmente, é possível controlar a infecção com um único comprimido diário, ao contrário dos anos 1990, quando eram necessários mais de 20 comprimidos com efeitos colaterais severos. Os antirretrovirais modernos reduzem a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do vírus.
Outro marco foi a PrEP (profilaxia pré-exposição), adotada no SUS em 2017. Quando usada corretamente, reduz em 99% a chance de infecção. No entanto, o acesso ainda é desigual, segundo Costa. "O que vemos no Brasil é uma boa rede de apoio nos grandes centros, sobretudo no Sudeste, e o interior desfavorecido. Temos médicos que ainda não conhecem PrEP, municípios sem testagem, pessoas sem informação", afirma.
Relato de quem vive com HIV
Vando Oliveira, 55, recebeu o diagnóstico de Aids em novembro de 1998. Hoje coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV no Ceará, ele diz que o preconceito ainda não foi vencido e que a doença saiu de pauta. "Todo dia tem gente se infectando, todo dia tem gente morrendo. Não se pode baixar a guarda", afirma.
Oliveira destaca que o perfil de quem tem Aids é a pessoa pobre, negra e periférica. "Lidamos com 900 famílias que dependem de cesta básica para se alimentar. Quantas estão sem pedir? Há pessoas vivendo com HIV e com fome. Como se toma remédio com fome?", questiona.
Ele avalia que houve um afrouxamento das políticas sobre Aids nos últimos anos, decorrente de uma falsa percepção de que a doença não representava mais perigo. "Hoje eu tomo remédio todo dia e vivo bem, mas ainda há muita gente com Aids no Brasil sem remédio, vide o número anual de mortes. Isso o Estado não pode permitir", diz.
Mudança no perfil dos infectados
O perfil de quem se infecta mudou ao longo das décadas. Em 2024, havia 28 homens vivendo com HIV para cada 10 mulheres. Pretos e pardos representavam 59,7% dos novos registros, enquanto a participação de pessoas brancas caiu para 36,8%. O número de pessoas com 60 anos ou mais com HIV aumentou 46,2% na última década.
Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.