Países de diferentes continentes têm emitido recomendações de cautela a seus cidadãos que planejam viajar para o Brasil, citando problemas relacionados à violência e ao crime organizado. Os alertas estão presentes nas seções de avisos para viajantes de 22 das 30 maiores economias do mundo, segundo levantamento da Folha.
As advertências mencionam facções criminosas, golpes como o da maquininha e clonagem de cartão de crédito, além do risco de assaltos à mão armada. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a escalada da violência em determinadas regiões contribui para a deterioração da imagem do Brasil no exterior.
Crime organizado e facções
O crime organizado é citado por 17 países nos alertas, que falam em gangues, grupos armados ou facções. O Japão, por exemplo, afirma que o Brasil convive com uma alta taxa de criminalidade e que ataques e represálias de facções podem ocorrer até em locais públicos, com risco de civis serem atingidos. O país asiático baseia a informação no assassinato do empresário Vinícius Gritzbach, morto em 2024 em uma emboscada do PCC no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde três civis foram baleados.
Países como Canadá e Alemanha desaconselham visitas a comunidades e favelas. O Canadá recomenda evitar os complexos da Penha e da Maré, no Rio de Janeiro, devido a altos índices de crimes violentos e frequentes operações policiais. A Alemanha afirma que as favelas do Rio são, no geral, controladas por criminosos e facções.
Regiões de fronteira e Amazônia
Os alertas também mencionam áreas de fronteira, como a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, e a Amazônia. A Bélgica cita a limitada atuação do Estado na região amazônica e a presença de grupos criminosos organizados. A Polônia informa que as regiões da floresta amazônica, do Pantanal e as áreas fronteiriças com Paraguai e Bolívia são particularmente perigosas.
Roubos e golpes em grandes cidades
As advertências destacam riscos em grandes centros urbanos. A Espanha recomenda a seus cidadãos em São Paulo evitar o uso de celulares ou exibição de objetos de valor em público, devido ao alto risco de roubo à mão armada. A França afirma que nenhum bairro da cidade está completamente imune. O Rio de Janeiro é a cidade mais citada nos alertas, com referências a confrontos armados e áreas sob influência de facções.
Reações das autoridades brasileiras
O Itamaraty não comentou o assunto. O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que acompanha os comunicados com atenção e reconhece que o enfrentamento à criminalidade organizada, à violência urbana e aos crimes patrimoniais segue como um desafio permanente. A pasta citou medidas como a ampliação de ações especializadas da Polícia Federal e a aprovação da lei antifacção.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro declarou que as orientações a turistas estrangeiros fazem parte de protocolos internacionais e que não há um cenário de insegurança a turistas, citando que menos de 1% dos 2,2 milhões de estrangeiros que visitaram o estado em 2025 registraram ocorrências. O governo de São Paulo destacou investimentos em segurança e queda nos indicadores de roubos, furtos e latrocínios, além de afirmar que nenhuma cidade paulista está entre as cem mais violentas do país.
A gestão Lula disse que parte dos alertas reflete preocupações legítimas, mas que é importante evitar generalizações diante da dimensão continental do país e dos avanços nos indicadores criminais.
Impacto na imagem do país
O professor de direito internacional da USP, Pedro Dallari, afirma que a emissão de alertas é prática comum, mas que o cenário descrito retrata um país que não consegue resolver os problemas da violência. O delegado Roberto Monteiro, da Polícia Civil de São Paulo, diz que questões recentes na segurança doméstica, especialmente o avanço das facções, impactam a imagem do Brasil no exterior e afetam setores como o turismo, que, embora tenha registrado recorde de 9,6 milhões de turistas em 2025, poderia ter números ainda maiores.
Com informações de Folha — Cotidiano.