Há 135 anos, o papa Leão XIII publicava a encíclica Rerum Novarum, que diagnosticava a ânsia por mudanças na sociedade da Revolução Industrial e propunha uma alternativa católica ao socialismo e ao liberalismo. O texto, que ecoa até hoje, continua relevante diante de fenômenos como a ascensão das Big Tech, a uberização e a substituição de profissionais pela tecnologia.
Segundo o artigo, a Doutrina Social da Igreja não se limita a temas como primazia do trabalho sobre o capital ou salário familiar. Há um espírito próprio do cristianismo na vida social, uma “boa nova” que pode ser acolhida por todos. O autor, Vicente Argous, advogado e professor chileno, questiona qual seria a marca distintiva que a fé pode imprimir à política.
Para Argous, a renovação interior é essencial. O cristianismo traz algo novo — o Evangelho — que não anula a natureza, mas a intensifica. Essa novidade não se restringe ao indivíduo: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5) abrange a empresa, o sindicato, os contratos, o planejamento urbano e as urnas. A política, cujo fim é o bem comum, pode ser renovada por dentro sem perder sua natureza.
O autor critica a visão de que governar é apenas uma questão de eficiência técnica. “Se acreditar que basta uma planilha para administrar bem um país, parece que esse impulso renovador de Cristo ainda não o transformou plenamente”, escreve. A renovação trazida por Cristo, segundo ele, deve recapitular todas as coisas, e só com a caridade de Cristo há verdadeira justiça.
O artigo cita o impacto histórico da Rerum Novarum no Chile, onde jovens do Partido Conservador inspiraram leis sociais, o primeiro código do trabalho, o descanso dominical e obras como o Hogar de Cristo. Toda uma geração de figuras notáveis mudou o curso da história chilena, movida pelo impulso renovador da encíclica.
Argous conclui que o social-cristianismo não é uma terceira via entre esquerda e direita, mas uma renovação interior que transforma todas as realidades, tornando-as novas sem que percam sua própria natureza.
Com informações de Gazeta do Povo.